TRADUÇÃO DA LITERATURA BRASILEIRA NA CHINA

Com o objetivo de fomentar a tradução da literatura brasileira para o mandarim, no dia 23 de setembro de 2021, a Embaixada do Brasil em Pequim promoveu um evento online que contou com a presença de 8 editoras chinesas e 14 brasileiras, além da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), da Câmara Brasileira do Livro (CBL), da Apex-Brasil e da Open Books.

“A Hora da estrela”, de Clarice Lispector
Publicado pela Shanghai 99 com o apoio da FBN

O encontro foi uma excelente oportunidade para aproximar as editoras dos dois países (promovendo interação direta e troca de portfólios) e apresentar o mercado editorial chinês (incluindo as tendências e enfoques específicos). Ainda assim, o encontro virtual foi um espaço propício para introduzir as editoras chinesas aos programas de apoio à tradução de literatura brasileira da FBN e da CBL disponíveis àqueles que queiram traduzir, publicar e distribuir internacionalmente obras literárias previamente publicadas no Brasil.

“Azul Corvo”, de Adriana Lisboa
Publicado pela Central Compilation com o apoio da FBN

O evento foi antecedido e pavimentado por uma live sobre literatura brasileira, também organizada pela Embaixada do Brasil, que se deu no contexto da 24ª Feira Internacional do Livro de Pequim (BIBF), ocorrida entre os dias 23 e 27 de agosto deste ano. Durante o evento online que já possui mais de 1 milhão de visualizações, escritores e tradutores chineses expuseram as suas experiências com a literatura e a cultura brasileiras. Em paralelo, durante a Feira do Livro de Pequim, cerca de 20 livrarias chinesas exibiram livros traduzidos do português para o mandarim.

A série infantil “O diário de Pilar”, de Flávia Lins e Silva
Publicado pela Guangxi com o apoio da FBN

O Programa de Tradução e Publicação de Autores Brasileiros no Exterior da FBN aproveita a iniciativa do Itamaraty para fazer um balanço da tradução da literatura brasileira para o mandarim fomentada pelo governo federal durante os 30 anos da existência do Programa (1991-2021). Ao total, entre 2012 e 2019, foram concedidas 13 bolsas de tradução para 06 editoras chinesas. Desta forma, o mandarim figura como o 15º idioma mais traduzido por meio das bolsas de tradução concedidas pela FBN, com 1,17% do total.

EDITORA CHINESATÍTULO DA OBRA TRADUZIDAAUTORANO DE CONCESSÃO DA BOLSA
Thinkingdom Media GroupO diário de um magoPaulo Coelho2012
Thinkingdom Media GroupO AlephPaulo Coelho2012
People’s Literature Publishing HouseVamos aquecer o sol / DoidãoJosé Mauro de Vasconcelos2013
Shanghai 99A hora da estrelaClarice Lispector2013
GuangxiDiário de Pilar na AmazôniaFlávia Lins e Silva2014
GuangxiDiário de Pilar no EgitoFlávia Lins e Silva2014
GuangxiDiário de Pilar na GréciaFlávia Lins e Silva2014
GuangxiCaderno de viagens de PilarFlávia Lins e Silva2014
People’s Literature Publishing HouseRosinha, minha canoaJosé Mauro de Vasconcelos2015
Yilin PressTenda dos milagresJorge Amado2016
Yilin PressA morte e a morte de Quincas Berro d’ÁguaJorge Amado2016
Central Compilation & Translation PressAzul-corvoAdriana Lisboa2019
Central Compilation & Translation PressSinfonia em brancoAdriana Lisboa2019

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HQs BRASILEIRAS SE DESTACAM DENTRE AS PUBLICAÇÕES DA EDITORA POLVO (LISBOA)

Com a História em Quadrinho (HQ) contemporânea brasileira como uma de suas principais frentes de publicação – ou Banda Desenhada (BD) como é chamada em Portugal –, a Editora Polvo, de Lisboa, publicou recentemente dois importantes exemplares desse gênero na literatura brasileira com o apoio financeiro do Programa de Tradução da Fundação Biblioteca Nacional do Brasil: “Angola Janga”, de Marcelo D’Salete e “Morro de Favela”, de André Diniz (com fotos de Maurício Hora). Ao total, a editora portuguesa já foi contemplada com 10 bolsas de apoio financeiro do Programa de Tradução da FBN para a publicação de HQs brasileiros, dentre os anos de 2016 e 2019: “Os sertões”, de Carlos Ferreira e Rodrigo Rosa; “O ateneu”, de Marcello Quintanilha e Raul Pompeia; “Hinário nacional” e “Folia de reis”, de Marcello Quintanilha”, dentre outros.

Publicação da Ed. Polvo com o apoio da Fundação Biblioteca Nacional

Segundo o diário Público, Rui Brito é o editor que tem mais investido na publicação de HQ brasileira no mercado português, através da Editora Polvo – pela qual já lançou, desde 2013, quase trinta títulos distribuídos em uma coleção dedicada ao “Romance Gráfico Brasileiro”: “Cachalote”, de Daniel Galera e Rafael Coutinho; “Cadafalso”, de Alcimar Frazão; “Tungsténio”, de Marcello Quintanilha; “O maestro, o cuco e a lenda”, de Wagner Willian, dentre outros. Em outras colecções, lançou igualmente diversos títulos de autores brasileiros, como é o caso de: “Grande”, de André Ducci; dois volumes da série “Edibar”, de Lucio Oliveira; “Portais”, de Octavio Cariello e Pietro Antognioni, ou dois volumes da série “Maria”, de Henrique Magalhães. O primeiro volume de “Maria”, “Seu nome próprio… Maria! Seu apelido… Lisboa!” seria inclusivamente premiado com o Prémio Nacional de Banda Desenhada (categoria de Humor), o mais prestigiante prêmio atribuído em Portugal na área da HQ. Nas palavras do editor português, “[p]rocurei sempre estar atento ao que se está a produzir no Brasil. A nossa colecção [de Romance Gráfico] reúne o ‘supra-sumo’ do que se está a fazer no Brasil. Neste momento a Polvo é muito conhecida pelos autores brasileiros”.

De acordo com reportagem da Folha de São Paulo, de 21 de setembro de 2019, a internacionalização da HQ brasileira em Portugal é tão significativa que a publicação no país europeu começa a virar a primeira opção – ou às vezes única – para artistas vindos do Brasil. Um exemplo foi a publicação de “Luzes de Niterói”, obra do quadrinista Marcello Quintanilha, pela Editora Polvo meses antes de sair no Brasil pela Editora Veneta em 01 de fevereiro de 2019.

Publicação da Ed. Polvo com o apoio da Fundação Biblioteca Nacional

Por e-mail, entrevistamos o editor português Rui Brito a respeito da importante contribuição que a Editora Polvo tem realizado para a divulgação da cultura e literatura brasileiras por meio da publicação de HQs contemporâneos:

  1. Nos conte um pouco da Editora Polvo. Por que fundar, em 1997, uma editora especializada em História em Quadrinho – ou Banda Desenhada como o gênero literário é chamado em Portugal?

A fundação da Polvo surgiu da necessidade de encontrar um local de publicação para uma série de jovens autores portugueses, emergentes na altura e de grande qualidade, pois praticamente não havia a possibilidade de serem editados em livro. A ideia foi publicá-los de forma continuada, dando-lhes oportunidade de crescer enquanto autores.

2. Por que a HQ contemporânea brasileira se tornou uma das principais frentes de publicação da Editora Polvo?

Desde o final da década de 80 que acompanho o que vem sendo feito no Brasil na área dos quadrinhos. Foram aparecendo editoras que davam atenção a trabalhos de autores nacionais e houve uma época em que se deu uma explosão, com a publicação de várias obras marcantes na História do Quadrinho Brasileiro Contemporâneo. Refiro-me, por exemplo, a obras como “Cumbe” e “Angola Janga”, de Marcelo D’Salete, “Tungsténio” e “Talco de vidro”, de Marcello Quintanilha, “Cachalote” e “Mensur”, de Rafael Coutinho ou “Morro da favela”, de André Diniz e Maurício Hora. Todos estes trabalhos se encontram publicados em Portugal, pela Polvo.

3. Quais são cos critérios e os processos pelos quais a Editora seleciona as obras brasileiras a serem publicadas?

Depende das obras e da sua temática. Mas, geralmente, os critérios são: combinação do binômio desenho e texto (muito importante, a qualidade do texto) e brasilidade. Depois, procuramos sempre acrescentar algo às nossas edições, como por exemplo as capas inéditas, trabalhando em estreita parceria com os autores, alguns textos introdutórios ou a adaptação de alguns textos/termos para o português de Portugal, quando tal, na nossa óptica, se justifica.

4. “Angola Janga” e “Morro de Favela”, por exemplo, são obras muito importantes do ponto de vista histórico-social brasileiro. Ao passo que aquela trata da história de Palmares – o maior quilombo brasileiro e marco na luta contra a escravidão no país –, esta trata de conflitos contemporâneos travados nas favelas brasileiras pelo ponto de vista do fotógrafo Maurício Hora (morador do Morro da providência, no Rio de janeiro). Como se dá a recepção dessas narrativas pelo público português? O senhor considera que a linguagem dos HQs serve para tornar tais temáticas mais acessíveis?

As obras que refere têm tido um excelente acolhimento por parte do público português. A linguagem das HQ facilita em muito a acessibilidade a tais temáticas e sou defensor do seu uso no ensino escolar a todos os níveis, incluindo o universitário para a comunicação da ciência.

Aliás, a Polvo tem candidatado algumas obras de autores brasileiros ao Plano Nacional de Leitura (PNL), um programa do governo de Portugal que funciona como um “guia” para a leitura (muito útil para bibliotecas públicas e escolares), no fundo um selo de qualidade, e quase todas têm sido recomendadas aos leitores portugueses.

Posso acrescentar que a Polvo, para além de editar os livros, procura, sempre que possível, promover a realização de exposições à volta das HQs que originaram as obras e gerar sinergias para trazer os autores à Portugal, para se contactarem com os leitores portugueses e divulgarem o seu trabalho.

5. Para além de Portugal, as publicações da Editora Polvo conseguem atingir outros países da Comunidade dos Países de Língua Portuguese (CPLP), tais como Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Portugal, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste?

Apesar da Polvo ter sido, inclusive, pioneira na edição de HQ em crioulo de Cabo Verde, é muito difícil chegar aos países da CPLP, por variadas razões. 

6. Qual a importância do Programa de Tradução da Fundação Biblioteca Nacional para as publicações de obras brasileiras pela Editora Polvo?

Felizmente que a FBN tem esse programa ativo, pois este é um valoroso incentivo à viabilização da edição de Literatura Brasileira no exterior, sendo ao mesmo tempo uma excelente montra da sua diversidade e qualidade. No caso da Polvo, tem sido muito importante poder contar com o Programa. 

Fontes consultadas:

ASSIS, Érico. Em crise, quadrinhos brasileiros encontram nichos de publicação em Portugal. In: Folha de São Paulo, 21 de setembro de 2019. Disponível em: https://bit.ly/3rjSp1C

LUSA. Exportação da BD brasileira passa por Portugal. In: Público, 02 de novembro de 2019. Disponível em: https://bit.ly/3hTGl3O

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A TRADUÇÃO DA LITERATURA BRASILEIRA NO EGITO

As influências culturais no Brasil, e na civilização Ocidental como um todo, disseminadas por viajantes e imigrantes dos países de língua árabe são abundantes. Falada por mais de 280 milhões de pessoas como língua materna – no Oriente Médio, Sudoeste Asiático e Norte da África –, o árabe é a língua oficial de 26 países, ficando atrás apenas do inglês e do francês. Dentre as diversas variantes do idioma, o árabe egípcio é o mais falado e compreendido mundialmente.

As trocas culturais estabelecidas entre Brasil e Egito são de longa data, uma vez que D. Pedro II (1825-1891) nutria grande curiosidade e admiração pelo Oriente Médio, e em especial, pelo Egito Antigo. No livro intitulado, “As viagens de D. Pedro II: Oriente Médio e África do Norte, 1871 e 1876”, Roberto Khatlab apresenta as impressões registradas pelo imperador do Brasil em seus diários sobre as duas expedições que realizou ao Egito – das quais trouxe artefatos históricos, mapas, livros e fotos de viagens que contribuiriam para a composição do maior acervo egípcio da América Latina. No livro, o pesquisador brasileiro esclarece que D. Pedro II era conhecedor de mais de dezessete idiomas, entre eles o árabe, o hebraico, o turco, o inglês e o francês, e encarava os estudos linguísticos como um fator de fortalecimento da comunicação com os estrangeiros.

D. Pedro II em uma de suas expedições ao Egito na década de 1870.

No ano que marca o sesquicentenário da primeira expedição de D. Pedro II ao Egito (1871), o Programa de Tradução da Fundação Biblioteca Nacional faz um balanço da cooperação cultural estabelecida entre o governo brasileiro e quatro editoras egípcias por meio da concessão de 12 bolsas de tradução entre os anos de 2012 e 2018 para a disseminação da literatura brasileira em língua árabe.  

Fundada em 2007 como uma editora independentes, o departamento editorial da Agência Literária Sphinx objetivava, desde o seu início, criar uma maneira eficiente de promover livros no mercado editorial. Desta forma, desenvolveu o que é hoje considerada uma das mais importantes editoras de literatura internacional no mundo árabe com mais de 200 títulos traduzidos para o idioma. Com o apoio da FBN, a Sphinx publicou cinco obras que revelam um pouco da versatilidade do seu catálogo. Em 2013, publicou clássicos como “Esaú e Jacó” (1904), de Machado de Assis e “Canaã” (1902), de Graça Aranha. Em seguida, no ano de 2015, publicou três livros do gênero infantil “O menino que achou uma estrela” (1988), de Marina Colasanti; “O consumo” (2011), de Cristina Von; “Você conhece a Joana?” (2012), de Maria Eugênia.

Com mais de 190 títulos publicados sobre política, história cultural e literatura, a Editora Sefsafa foi estabelecida em 2009. Com quase 80 traduções de 15 idiomas em seu catálogo, do Brasil a editora egípcia traduziu três clássicos daquele que é considerado por muitos críticos, estudiosos e eleitores o maior nome da literatura brasileira, Machado de Assis. Em 2017, publicou “Várias histórias” (1896); dois anos depois, em 2019, lançou “Memórias póstumas de Brás Cubas” (1881); mais recentemente, em 2020, trouxe para a língua árabe o mais célebre dos 10 romances de Machado de Assis, “Dom Casmurro” (1889).

“Várias histórias”, de Machado de Assis

Com mais de quarenta anos de existência, a editora El Arabi foi fundada na fervilhante cidade do Cairo de 1975 e conta com mais de 1000 títulos em seu catálogo das mais diferentes áreas do conhecimento: comunicação de massa, bibliotecas, histórias, artes, literatura e livros infantis. Com três traduções da literatura brasileira dentre as suas publicações, as escolhas editoriais da El Arabi revelam um olhar no contemporâneo, mais especificamente em nomes femininos que dão continuidade à alta qualidade produção literária brasileira no presente. Neste sentido, em 2014, publicou “Sinfonia em Branco” (2001), de Adriana Lisboa; dois anos depois, em 2016, lançou “Ladrão de Cadáveres” (2010), de Patrícia Melo; em 2019, publicou “A chave de casa” (2007), de Tatiana Salem Levy.

“Ladrão de cadáveres”, de Patrícia Melo
Tatiana Salem Levy exibindo a sua obra traduzida para o árabe

Também com mais de quarenta anos atuando no mercado editorial egípcio, a editora Mars El Arabia traduziu para a língua árabe e publicou, em 2020, “A resistência” (2015), de Julián Fuks. Considerada pelo autor como uma obra de “biografia ficcional”, o livro ganhou o Prêmio Jabuti, em 2016 (nas categorias “Romance” e “Livro do Ano Ficção”), assim como o Prêmio Literário José Saramago, em 2017.

Julián Fuks segurando a sua obra traduzida para o árabe

Com o apoio financeiro do Ministério das Relações Exteriores e a organização da Embaixada Brasileira no Cairo, Tatiana Salem Levy e Julián Fuks visitaram esta cidade no contexto da Feira Internacional do Livro do Cairo, em janeiro de 2020. Os dois expoentes da literatura brasileira contemporânea participaram de um evento na Biblioteca Pública do Grande Cairo, assim como do simpósio “A Constituição”: a Literatura brasileira como espelho para a diáspora de exilados (sediado pelo jornal egípcio Al-Dustour)

Promoção do evento com os dois autores brasileiros na Biblioteca Pública do Grande Cairo

FONTES CONSULTADAS:

Escritor brasileiro Julián Fuks: “Mil e uma noites” foi o meu talento. In: Al-Dustour, 01 de fevereiro de 2020. Disponível em: https://www.dostor.org/2988711

KHATLAB, Roberto. As viagens de D. Pedro II: Oriente Médio e África do Norte, 1871 e 1876. Editora Benvirá, 2015.

MODELLI, LÍS. As relíquias que D. Pedro 2º encontrou no Egito e foram queimadas no incêndio do Museu Nacional. In: BBC News Brasil, 07 de setembro de 2018. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45452478

Tatiana Salem Levy e Julián Fuks no simpósio “A Constituição”: a Literatura Brasileira como Espelho para a Diáspora de Exilados. In: Al-Dustour, 27 de janeiro de 2020. Disponível em: https://www.dostor.org/2982878

Verbete sobre língua árabe. In: Wikipedia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADngua_%C3%A1rabe

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Maria Clara Machado em 2021:

memórias de uma vida dedicada ao teatro e à literatura

O ano de 2021 é paradoxalmente significante para a memória da escritora, dramaturga, diretora, atriz e educadora brasileira, Maria Clara Machado. Nascida em Belo Horizonte, em 03 de abril de 1921, e falecida aos 80 anos, em 30 de abril de 2001, o ano marca os 100 anos do nascimento da autora de memoráveis peças infantis, ao mesmo tempo que nos remete à sua morte há 20 anos atrás. Ainda assim, em 2021, é comemorado os 70 anos da escola e grupo de teatro amador fundado por Maria Clara Machado, O Tablado, considerado Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro e responsável pela formação de atores como Fernanda Torres, Marcelo Serrado, Drica Moraes, Malu Mader, Maria Padilha, Lucia Verissimo, Patrícia Pillar e Louise Cardoso.

O conjunto da obra de Maria Clara Machado foi de fundamental importância para a formação de uma cultura teatral brasileira. Dentre as 29 peças infantis que a autora escreveu, a de maior sucesso com o público e a mais importante de seu repertório, “Pluft, o Fantasminha” foi levada pela primeira vez ao palco do Tablado, em 1955. Desde então, permanece viva no imaginário popular nacional, além de ter ganhado projeção internacional – o texto foi traduzido para diversos idiomas e encenado nos palcos da Europa, América Latina e Estados Unidos. As peças teatrais de Maria Clara Machado também foram publicadas em livros, assim como algumas de suas obras foram realizadas no cinema e na TV.

Apesar da pandemia de Covid-19 impedir comemorações presenciais, a UNIRIO realizou um seminário online (entre 21 de abril e 19 de maio) e a Fundação Casa de Rui Barbosa montou uma exposição virtual (inaugurada em 03 de abril). As cinco mesas-redondas, que contaram com a participação de estudiosos, professores e artistas, foram organizadas pelo Departamento de Ensino de Teatro da UNIRIO/PROEXC e estão disponíveis no YouTube (https://www.youtube.com/watch?v=X3l7LpTC4_A). Já a “Exposição Maria Clara Machado” foi montada a partir do arquivo da dramaturga e inclui fotos pessoais, cartazes de peças, capas de livros, os cadernos nos quais escrevia suas histórias à mão e uma correspondência trocada com o poeta Carlos Drummond de Andrade – a mostra pode ser visualizada no site da Casa de Rui Barbosa (http://rubi.casaruibarbosa.gov.br/handle/20.500.11997/17027). Segundo o jornal O Globo, há também uma versão 3D de “Pluft, o fantasminha” pronta e à espera da pandemia arrefecer para estrear nos cinemas.

Neste contexto de reconhecimento da obra de Maria Clara Machado e com o apoio financeiro concedido pelo Programa de apoio à Tradução e à Publicação de Autores Brasileiros no Exterior da Fundação Biblioteca Nacional, o projeto colombiano Ediciones Mulato – parte da Fundación Teatro Musical Latinoamericano (MULATO) e da livraria Tienda Teatral – publicou “O Tablado: Antología de teatro infantil”. Com edição de Andrés Cháves e ilustrações de John Varón, a obra disponibiliza os textos de oito peças teatrais da dramaturga brasileira para a língua espanhola, em uma edição especial de capa dura contendo 400 páginas em uma tiragem inicial de 1000 cópias.  De acordo com a Ediciones Mulato, “[c]om este livro de luxo belamente ilustrado (que inclui 3 obras nunca antes traduzidas para o espanhol), reafirmamos a magia do teatro de María Clara e seu legado para o mundo do palco e da fantasia, para torná-lo atraente para leitores de todas as idades e incentivar a performance teatral, assim como o simples prazer de ler o teatro”.

Capa da publicação em espanhol com o apoio da FBN

Entrevistamos, por e-mail, o representante legal da Ediciones Mulato e responsável pela realização do projeto, Andrés Cháves:

Por que traduzir textos escritos por Maria Clara Machado há mais de 50 anos para a língua espanhola nos dias atuais?

Porque suas peças são muito bem pensadas para crianças, elas estão cheias de brincadeira, charme e poesia. Elas são compreensíveis para idades mais jovens, mas não são bobas, chatas ou simples. Maria Clara Machado usa o arquétipo como ferramenta para acessar todos os públicos, mas seus personagens têm dúvidas, coragem e não são planos. Mesmo no caso das obras serem representadas por grupos escolares, elas apresentam um equilíbrio de protagonismo entre vários personagens, com todos os elementos do teatro (atuação, figurino, música, dança, interpretação) o que torna as peças ideais para uso na escola.

Qual a importância das peças infantis da dramaturga para a cultura teatral colombiana?

Na década de 1960, havia uma forte tendência para o teatro de grupo em toda a América Latina. Particularmente na Colômbia com o fenômeno que conhecemos como “criação coletiva”. A essa altura, o teatro de Maria Clara Machado era novo e pertencia à vanguarda latino-americana que os atores teatrais da época gostavam de apresentar com seus grupos, pois ainda precisavam fazer teatro para crianças. Na Colômbia, as obras de Maria Clara vieram da amiga Dina Moscovicci, que emigrou para a Colômbia e fez parte da criação do grupo de teatro El Búho. Influenciou outros grupos teatrais colombianos, como o TPB-Teatro Popular de Bogotá, que apresentou “Pluft” (1970 e 1978) e “A meniana e o vento” (1970). Muitas pessoas do teatro se lembram dessas peças dos anos setenta. Sem dúvida, o teatro infantil de Maria Clara influenciou a dramaturgia infantil de autores colombianos como Carlos José Reyes ou Jairo Aníbal Niño. Naqueles anos, o Brasil era referência cultural para a Colômbia e para o mundo. Foi o boom da Bossa-Nova. Grupos de teatro colombianos apresentaram peças brasileiras como “Vida e morte severina”, de João Cabral do Melo; a influência das teorias teatrais de Augusto Boal estava perfeitamente alinhada com sua própria busca pelo “latino-americano”.

Dentre as 29 peças infantis escritas pela autora brasileira, como o senhor definiu os oito textos traduzidos e publicados pela antologia publicada pela Ediciones Mulato?

O objetivo era incluir as peças inevitáveis ​​de Maria Clara: “Pluft”, “O cavalinho”, “A menina e o vento… não podiam faltar. Mas inclui também algumas menos conhecidas, para inovar no conhecimento sobre sua obra na língua espanhola. Eu viajei para o Rio de Janeiro em 2019 e conheci Cacá Mourthé, sobrinha da autora e atual diretora do teatro O Tablado. Ela sugeriu os títulos, para esta antologia. Gostaríamos de conhecer e divulgar mais peças; mas oito já era um número grande para o escopo deste livro.

Com a tradução dos textos das peças teatrais para o espanhol, qual a difusão que o senhor acredita que a obra de Maria Clara Machado possa vir a ter nos países falantes da língua espanhola?

Queríamos fazer uma edição muito especial; uma edição de um livro de luxo, belamente ilustrado, para que seja atraente para todos os públicos, mas principalmente para as crianças. Os livros de teatro costumam ser simples e desleixados. Assim, o nosso compromisso com o projeto editorial Mulato é produzir livros que sejam bonitos e que as pessoas queiram valorizar. Inovar como editora especializada em artes cênicas. Há uma produção notável de livros infantis na América Latina, que quase nunca inclui o teatro em seus acervos. Assim, esperamos que com este livro, motivemos os leitores a ler teatro. Claro que em muitas faculdades, escolas e grupos eles também poderão representar as peças, o que seria o uso ideal das obras criadas por Maria Clara.

Mas com o livro único, já garantimos diversão e alegria. Estamos trabalhando em ações de médio prazo para a distribuição do livro nos principais países de língua espanhola. Esse é o trabalho árduo após terminar o livro, que é chegar às comunidades, aos profissionais do teatro e às escolas. Esse trabalho leva anos e é o que fazemos no dia a dia com nossa livraria Tiendra Teatral (www.tiendateatral.com ).

Qual foi a importância do apoio do Programa de Tradução da FBN para a concretização do projeto e a publicação da obra?

O apoio foi muito importante, já que o mercado de livros para teatro é muito pequeno. É quase impossível recuperar o investimento com a venda de livros, o que faz do trabalho editorial que temos uma utopia. No entanto, insistimos, e por isso quisemos fazer livros que ultrapassassem as expectativas de qualidade e design, para que fossem valorizados pelo público leitor. Sabemos que a rotação deste livro será lenta e provavelmente demorará muitos anos, mas estamos muito orgulhosos do resultado alcançado. Esperamos que seja base para múltiplas ações que permitam a integração cultural do teatro brasileiro com o do resto da América Latina.

Agradecemos imensamente o apoio do Programa da Biblioteca Nacional para esta publicação, bem como a liberdade que nos deram para conseguir um produto com o qual estamos muito satisfeitos.

Ilustrações que acompanham os textos de “Dragão verde” e “Pluft, o fantasminha”, respectivamente

A tradução dos oito textos publicados ficou a cargo de duas tradutoras. Falecida em 1987, Maria Julieta Drummond de Andrade traduziu “O rapto das cebolinhas” (1953); “A bruxinha que era boa” (1954); “Pluft, o fantasminha” (1955); “O cavalinho azul” (1959); “A menina e o vento” (1962). Marcia Cabrera Antia ficou responsável pela tradução de “Maria minhoca” (1967); “Tribobó city” (1971); “O dragão verde” (1983). Também entrevistamos, por e-mail, a tradutora Marcia Cabrera Antia:

Como foi traduzir Maria Clara Machado para o espanhol?

Foi uma experiência muito rica, interessante e ao mesmo tempo muito desafiadora. Principalmente foi muito interessante conhecer essas peças tão modernas e de certa forma transgressoras para a época. Por outro lado, antes de ser tradutora, eu me formei como artista cênica, tanto como atriz quanto como diretora. Trabalhei muito com crianças e dirigi muitas peças teatrais para crianças. Então, o tempo todo eu pensava como um diretor de teatro (rsrsrs). Nesse sentido, foi um processo de tradução muito dinâmico e divertido. Eu passei muito tempo nas rubricas de ação!

Mas também houve desafios. Um deles, em relação à tradução do ponto de vista do local. Eu acho que a tradução é uma prática eminentemente local: um texto traduzido deve responder à inteligibilidade e aos interesses da língua e cultura de chegada para ser eficaz como tradução, independentemente do efeito ou função específica a que se destina. Porém, neste caso, tratava-se de uma tradução para o espanhol, mas não exclusivamente para o espanhol “colombiano”: era preciso pensar em uma tradução que pudesse ser lida em todos os países hispano falantes. Claro, aqui na América Latina cada país tem sua própria gíria. Então tive que fazer muitas e difíceis escolhas culturais, não tanto linguísticas.

Na mesma linha, pensando que a tradução é uma prática histórica, enraizada em situações culturais de momentos históricos específicos, outro desafio me foi apresentado, principalmente com alguns trechos das peças onde apareciam questões de gênero. Entendo que certamente foram divertidas na época – eu sei, porque eu mesma sou uma filha desta geração –, mas também acho que são sem dúvida questões que estão sendo pensadas hoje, e que estão ganhando grande relevância no momento. Nesse sentido, eu estava diante de um dilema ético: se eu deveria adaptar aquelas frases que poderiam eventualmente se referir a um problema de gênero ou respeitar o original, deixando de lado a discussão. Devo confessar que aqui novamente, eu estava pensando como a criadora da cena, como diretora e professora. Mas tive que desistir desse papel e retornar ao papel de tradutora e, neste caso, tive que tomar mais decisões linguísticas do que culturais.

Embora seja colombiana, você já morou no Brasil por quatro anos (2006-2009) para pesquisar cantos tradicionais e a cultura popular do Nordeste. Como compreende a relação entre a obra da dramaturga e a formação da cultura brasileira?

Sinto que Maria Clara Machado reflete em seu trabalho sobre um presente, um despertar cultural que estava ocorrendo no Brasil naquela época, principalmente na região do Rio de Janeiro. É bem conhecido que Maria Clara Machado foi uma das principais protagonistas de um processo de transformações intensas vivido pela sociedade brasileira na segunda metade do século XX. Com uma produção de peças tão robusta e impressionante, não tenho dúvidas de sua influência na formação não só da cultura brasileira, mas também de várias gerações de atores, atrizes e pessoas do teatro que até hoje continuam a transmitir seu importante legado.

Há ressonância no que a autora propõe em seus textos teatrais e o imaginário colombiano?

Eu diria que sim, já que muitas de suas peças fazem referência a um imaginário mais universal ou comum que foi criado na América Latina a partir de empréstimos de outras culturas, ou de clássicos da literatura universal. Entretanto, uma das coisas que mais aprecio no trabalho de Maria Clara Machado é a importância que ela dá ao local, e como ela consegue transformar peças ou histórias universais em histórias locais, com paisagens e personagens muito autóctones e autênticos. E isto é algo que também é feito muito na literatura infantil colombiana.

Qual é a sua perspectiva sobre o Programa de Tradução da Fundação Biblioteca Nacional para a disseminação da cultura e literatura brasileiras no exterior?

Eu acho que é um programa extremamente importante. Sou uma fervorosa seguidora da produção literária, cultural e artística brasileira. Mas também estou ciente da dificuldade que a língua brasileira apresenta para os falantes de espanhol – pois é muito mais fácil para os brasileiros entenderem o espanhol do que para aqueles que falam espanhol entenderem o português – e que a grande obra literária do Brasil tem sido traduzida em uma porcentagem muito pequena para o espanhol. É por isso que celebro a existência deste programa e estou feliz por ter feito parte desta experiência e poder contribuir para que muitas crianças em meu país e em outros países da América Latina tenham a oportunidade de crescer e ser formadas com a vasta e importante obra de Maria Clara Machado. 

Trecho traduzido para o espanhol de “O cavalinho azul” (1959)

Fontes consultadas:

CALAZANS, Ricardo. A desbravadora Maria Clara Machado faz cem anos. In: O Globo, 02 de abril de 2021. Disponível em: https://oglobo.globo.com/cultura/a-desbravadora-maria-clara-machado-faz-cem-anos-24951819

Com Cacá Mourthé e Louise Cardoso, ‘Conversa’ celebra centenário de Maria Clara Machado: ‘Espírito de moleca, chapliniana, mas muito disciplinadora’. In: Portal GShow, 27 de maio de 2021. Disponível em: https://gshow.globo.com/programas/conversa-com-bial/noticia/com-caca-mourthe-e-louise-cardoso-conversa-celebra-centenario-de-maria-clara-machado-espirito-de-moleca-chapliniana-mas-muito-disciplinadora.ghtml

Maria Clara Machado – Biografia. In: Site de O Tablado. Disponível em: http://otablado.com.br/texto/3/maria-clara-machado-biografia

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BALANÇO DOS 30 ANOS DO PROGRAMA DE TRADUÇÃO (1991-2021)

Programa de Apoio à Tradução e à Publicação de Autores Brasileiros no Exterior retomou seu fluxo habitual em 2021. A adaptação às novas condições de trabalho impostas pela pandemia da COVID-19, assim como a reformulação da equipe responsável pelo Programa, constituiu uma excelente oportunidade de balanço dos 30 anos de sua realização pela Fundação Biblioteca Nacional.

Realizado em cooperação com o Ministério das Relações Exteriores, o Programa de Tradução objetiva a concessão de apoio financeiro a editoras estrangeiras que desejam traduzir para qualquer idioma, publicar e distribuir no exterior, em forma de livro impresso ou digital, obras de autores brasileiros anteriormente publicadas em português no Brasil.

De 1991 a 2019 — período anterior ao do Edital hoje vigente — foram concedidas e aprovadas 1.114 bolsas de tradução que, em sua totalidade, fazem cumprir a missão do Programa de Tradução de difundir a cultura e a literatura brasileiras no exterior.

A lista dos 10 autores cujas obras mais receberam bolsas conjuga clássicos com contemporâneos demonstra ecletismo na divulgação da literatura e da produção intelectual brasileira.

De um total de 350 autores contemplados pelo Programa, Clarice Lispector é a mais traduzida, com 60 obras, 50 delas publicadas globalmente nos últimos dez anos, o que demonstra o crescente interesse pela autora.

No que tange aos gêneros literários apoiados, entre 2010 e 2019, as obras de ficção receberem 658 bolsas de tradução, seguidas da não-ficção (132), poesia (73), literatura infantil e juvenil (58), histórias em quadrinhos (29) e teatro (9). Os números comprovam a versatilidade do Programa e a preocupação da Fundação Biblioteca Nacional em difundir internacionalmente a literatura brasileira em sua amplitude e diferentes facetas.

A língua e o país de destino são aspectos fundamentais para que a promoção e a divulgação da cultura e literatura brasileiras no exterior produzam resultados positivos e efetivos. Neste sentido, o continente europeu tem assegurado a maior parcela das concessões, sendo a Espanha e a França os países que mais receberam apoio financeiro entre 1991 e 2019 (126 bolsas cada), seguidas da Itália (107) e Da Alemanha (103). As Américas aparecem em seguida, com destaque para Argentina (78) e Estados Unidos (67).

Acerca dos idiomas para os quais as obras brasileiras têm sido traduzidas com o apoio da Fundação Biblioteca Nacional, o espanhol lidera a lista com 224 bolsas recebidas entre 2010 e 2019. O inglês é o segundo idioma mais traduzido, com 106 bolsas. A lista segue com o francês (104 bolsas), o alemão (97) e o italiano (88).

Sintetizamos os resultados do Programa de Apoio à Tradução e à Publicação de Autores Brasileiros no Exterior entre os anos de 1991 e 2019 com os gráficos que seguem:

O Edital 2018-2020, estendido até 6 de junho de 2021, certamente foi afetado pela pandemia da COVID-19, que obrigou a desacelerar as atividades e adaptá-las ao trabalho remoto. Foram selecionados 53 projetos para a concessão de apoio financeiro. Os resultados podem ser vistos nos links a seguir:

Resultados do Programa de Tradução (Edital 2018-2020): https://www.bn.gov.br/edital/2018/programa-apoio-traducao-publicacao-autores-brasileiros

1ª. Reunião (agosto de 2018 – realizada antes da pandemia):

https://www.bn.gov.br/sites/default/files/documentos/editais/2018/programa-apoio-traducao-publicacao-autores-brasileiros/resultado-programa-apoio-traducao-publicacao-autores_1.pdf

2ª. Reunião (abril 2019):

https://www.bn.gov.br/sites/default/files/documentos/editais/2018/programa-apoio-traducao-publicacao-autores-brasileiros/resultado-programa-apoio-traducao-publicacao-autores_5.pdf

3ª. Reunião (outubro 2019):

https://www.bn.gov.br/sites/default/files/documentos/editais/2018/programa-apoio-traducao-publicacao-autores-brasileiros/resultado_reuniao_03_out_19.pdf

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Lançamento da publicação “Panorama da contribuição do Brasil para a difusão do português”

Como parte das comemorações do Dia Mundial da Língua Portuguesa, será lançada a versão digital do Panorama da contribuição do Brasil para a difusão do português, no dia 07 de maio de 2021, das 11h às 13h de Brasília.

Com prefácio assinado por Antonio Carlos Secchin, poeta brasileiro da Academia Brasileira de Letras, trata-se de uma obra de referência que apresenta inúmeras iniciativas brasileiras que contribuem para a repercussão internacional da língua portuguesa. O livro reúne 33 verbetes, escritos por especialistas em diversas áreas do conhecimento, envolvendo cinco eixos temáticos que revelam a abrangência das ações brasileiras na difusão do idioma no mundo: a) Ações de cooperação multilateral; b) Iniciativas da sociedade civil; c) Vetores da economia criativa; d) Políticas públicas; e) Ações acadêmicas. Além disso, a obra acolhe 17 depoimentos de escritores, artistas e intelectuais que revelam a importância da cultura brasileira em sua formação como artífices da palavra em língua portuguesa.

Conforme enfatiza a UNESCO, a língua portuguesa é não só uma das línguas mais difundidas no mundo, com mais de 265 milhões de falantes espalhados por todos os continentes, como é também a língua mais falada no hemisfério sul. O português continua a ser, hoje, uma das principais línguas de comunicação internacional, e uma língua com uma forte extensão geográfica, destinada a aumentar (https://pt.unesco.org/commemorations/portuguese-language-day).

Na ocasião, haverá uma apresentação da obra pelo Prof. Nelson Vianna, a presença dos escritores Vera Duarte, José Eduardo Agualusa e Antonio Carlos Secchin, assim como de representantes institucionais e dos responsáveis pela organização da obra. Iniciativa organizada pelo Departamento Cultural e Educacional do Itamaraty, a sessão, devido às restrições decorrentes da pandemia da COVID-19, será realizada em formato remoto na plataforma ZOOM e transmitida pelo Canal Youtube da Fundação Alexandre Gusmão – FUNAG (https://www.youtube.com/user/FunagBrasil).

Segundo ressalta o Diretor Técnico de Extensão da UnB, Prof. Dr.  Alexandre Pilati, além da excelente qualidade do conteúdo, a obra a ser lançada no dia 07 de maio está também ficando muito bonita e representativa da capacidade brasileira de divulgar mundialmente a língua portuguesa e a cultura brasileira.

O servidor da Fundação Biblioteca Nacional, Fabio Lima, contribuiu para totalidade da obra com um texto sobre o Programa de Apoio à Tradução e à Publicação de Autores Brasileiros no Exterior, gerido pelo Centro de Cooperação e Difusão da FBN (https://www.bn.gov.br/tags/centro-cooperacao-difusao). Desde 1991, o Programa, que objetiva incentivar a tradução de autores e autoras brasileiros no exterior, já concedeu mais de 1115 bolsas para a tradução da literatura brasileira para o inglês, francês, espanhol, alemão, polonês, sueco, chinês, árabe e russo – dentre um total de 42 idiomas. Além de promover globalmente os nomes e as obras de autores e autoras nacionais, desde Machado de Assis, Clarice Lispector e Jorge Amado até nomes mais contemporâneos, como Moacyr Scliar, Adriana Lisboa, Alberto Mussa e Daniel Galera.

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Os desafios da tradução de “Roça Barroca”, de Josely Vianna Baptista, para o sueco

Publicação original Página da FBN.

A tradutora e poeta sueca Ulla Gabrielsson é uma das tradutoras contempladas pelo edital “Programa de Apoio à Tradução e à Publicação de Autores Brasileiros no Exterior, edição 2018-2020”. Por meio da chamada pública, editoras estrangeiras são convidadas a apresentar projetos de tradução de autores brasileiros para outros idiomas, promovendo a divulgação e difusão da cultura nacional em diversas partes do mundo.

A tradutora e poeta sueca Ulla M. Gabrielsson é um das tradutoras contempladas pelo edital “Programa de Apoio à Tradução e à Publicação de Autores Brasileiros no Exterior, edição 2018-2020”.

Ulla M. Gabrielsson é uma das tradutoras contempladas pelo edital “Programa de Apoio à Tradução e à Publicação de Autores Brasileiros no Exterior, edição 2018-2020”.

 

Ulla está envolvida na tradução da obra Roça Barroca, que por sua vez é o produto de uma tradução realizada por Josely Vianna Baptista do guarani para o português. Envolvida em uma empreitada que se poderia chamar minimamente de ‘desafiadora’, Ulla Gabrielsson fala ao portal da Biblioteca Nacional sobre o trabalho realizado até aqui, sua experiência de campo e todo o aprendizado conquistado até agora nessa empreitada.

Como surgiu a ideia de traduzir a obra Roça Barroca em questão?

Surgiu por um acaso, que se transformou em sincronicidade. Descobri a obra artística de Francisco Faria e a poesia de Josely Vianna Baptista em 2009-2010 quando estava morando no Brasil entre Rio e Florianópolis.

Abrindo o Jornal do Brasil, em um dia de primavera no Rio de Janeiro, em setembro de 2009, me deparei com os desenhos de Francisco Faria.  Ele estava expondo sua obra no Largo de Carioca. Os desenhos tinham um ar enigmático que tinham correspondência com o meu imaginário de paisagens do Brasil. Logo em seguida, descobri a poesia de Josely, já que os dois colaboravam artisticamente.

O acaso se transformou em uma “coincidência significativa”, o que para mim é sinal de verdadeira sincronicidade (conceito desenvolvido por Carl Jung para definir acontecimentos que se relacionam não por relação causal e sim por relação de significado).

Em 2010 li os poemas de Josely na Internet, com um sentimento de reverência e afinidade. Na época, porém, não consegui localizá-la, embora tenha tentado.

Quatro anos depois, em 2014, Birgitta Wallin, editora-chefe de Karavan, uma revista literária sueca, me procurou pedindo um ensaio sobre poesia feminina do Brasil. Eu queria escrever sobre a obra de Josely. Eu já estava morando em Cambridge, na Inglaterra, quando finalmente localizei a Josely. Descobri que ela estava morando em Campeche, Florianópolis, a menos de um quilômetro da minha antiga casa. Fomos vizinhas durante um ano e meio sem saber!

Minha entrevista com a Josely girava em torno do seu livro Roça Barroca, que tinha sido  publicado em 2011. Desde então estamos procurando formas de colaborar. E finalmente, em 2018, conseguimos elaborar um projeto que redundou em uma bolsa de tradução da Fundação Biblioteca Nacional.

O projeto partiu de uma iniciativa ou interesse pessoal seu, ou da editora?

Partiu de uma afinidade artística: somos ambas poetas e tradutoras, Josely e eu.

A primeira tradução da poesia de Josely que fiz foi Dois rios, do seu livro Ar (1991). A primeira linha chove forte tem quatro sílabas. Virou slagregn faller em sueco. Slagregn significa uma chuva forte, que bate.

Um exemplo de uma tradução, onde o som da chuva caindo foi mantido (de alguma forma).

A forma nebulosa da imagem gráfica dos poemas me encantou, pois inspirava uma leitura pausada e meditativa [vide ilustração associada a esta publicação].

O mesmo encanto surgiu gentilmente quando li pela primeira vez Poema Sujo, de Ferreira Gullar, em 1981. Foi um sentimento imediato. Mas demorei 20 anos para traduzir Poema Sujo, que foi lançado em sueco em 2004 pela Tranan.

A motivação e a necessidade de traduzir partiu do imaginário das paisagens do Brasil, tão presentes nos cantos sagrados indígena Mbyá-Guarani, na poesia de Josely e nas imagens de Francisco Faria.

Tentar traduzir Roça Barroca partiu da minha vontade de compartilhar (com os leitores na Suécia) um outro imaginário da natureza e da Terra, que se tornou urgente nas circunstâncias de hoje. Vivemos numa época assustadora de desmatamento e extinção das espécies.

O livro Roça Barroca é ele mesmo produto de tradução de Josely Vianna Baptista de um texto original da tribo Mbyá-Guarani para o português. O seu trabalho de alguma maneira envolve explorações ou pesquisas diretamente no original guarani?

Traduzir uma tradução de uma língua que desconhecemos significa um desafio. Felizmente o livro inclui comentários detalhado sobre os termos em guarani escritos por Josely durante sua pesquisa.

Posso conferir cada termo e as dúvidas que existem sobre sua tradução. Além disto, estou aprendendo palavras de uma língua desconhecida, que os leitores suecos também vão conhecer, já que este é um livro bilingue, em sueco-mbyá-guarani.

Mbyá-guarani, língua falada por 6000 pessoas no Brasil, foi reconhecida como bem imaterial pelo Iphan/MinC e como patrimonio nacional em 2011.

Traduzir uma tradução provavelmente seria proibido, se tivéssemos um código civil de tradução. Porém, nós temos a licença poética. Decidi seguir a filosofia estoica de “pessimista feliz”. Se consigo passar uma ideia do conteúdo dos cantos (que nunca foram publicados em sueco), o projeto já é um imenso sucesso.

Há algum aspecto que você gostaria de mencionar em torno da obra, dessa tradução particularmente, ou desafios em relação à linguagem, estilo, construção das frases ou tipo de narrativa?

Eu leio com atenção os comentários sobre os termos essenciais em guarani, por exemplo. Estou pesquisando a origem da língua guarani e ouvindo os cantos.

Em guarani Ñe’êy significa palavra-alma original. Para mim o livro celebra o conceito de-palavra-alma dos Mbyá-Guarani.

Algo que cabe mencionar é a riqueza do livro Roça Barroca. Trata-se de uma obra híbrida que contém três textos essenciais de Augusto Roa Bastos, Francisco Faria e Josely Vianna Baptista, além da tradução dos Três cantos sagrados do Mbyá-Guarani de Guairá e os poemas de Josely em Moradas Nômades.

No seu diário de tradução, você menciona o desafio de traduzir o nome de um pássaro do inglês para o português: “imaginem traduzir para português uma canção com o robin no refrão? Sim, claro, tem variantes do nome: piscopintarroxopapo-ruivo ou papo-roxo, mas nada soa como robin. Qualquer tradução perde o som original”. Existe algum desafio adicional quando se traduz poesia, em que aspectos como rima, métrica e sonoridade das palavras têm maior relevância?

Sim, em poesia o ritmo e métrica é essencial. Como não é possível traduzir rima, é preciso optar por criar novas rimas ou excluir as rimas em nome do significado lexical. Como no exemplo acima do robin ou pintarroxo, os pássaros têm tantos nomes. Um exemplo dos dilemas é a tradução do verso sobre a coruja, em guarani urukure’a:

Em guarani: Pytû ja, Urukure’a* i.
Em português: O nume do escuro é o murucutu**.
Em sueco: Mörkret är ugglans tid, urucuaria***.

*Em guarani urukure’a (Speotyto cunicularia grallaria ou Athene cunicularia grallaria)
**Em português murucutu ((Pulsatriz koeniswaldiana)
***Em sueco prärieuggla (Athene cunicularia grallaria)

Optei pelo nome genérico em sueco: uggla, seguido pelo nome em guarani, para conseguir um pouco da tonalidade u-u-u do original.

Escolhas têm que ser feitas, perdendo e ganhando sentido e som. Ferreira Gullar me disse uma vez que as espécies dos pássaros que voam nas paginas no Poema Sujo não seriam tão importantes. Gullar até fala do pássaro-pássaro, uma espécie de essência de ave. O ave-em-si?

Leia aqui o diário de tradução que Ulla preparou a pedido da FBN.

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Edital de Apoio à Tradução 2018-2020

A Fundação Biblioteca Nacional lançou o Edital do Programa de Apoio à Tradução e à Publicação de Autores Brasileiros no Exterior para o período 2018-2020.

O programa contempla editoras estrangeiras que desejam traduzir e publicar obras de autores brasileiros.

São previstas cinco rodadas de avaliação até setembro de 2020:

  • 1ª: setembro 2018, recebimento de inscrições até 13/08/2018
  • 2ª: abril 2019, recebimento de inscrições até 14/03/2019
  • 3ª: setembro 2019, recebimento de inscrições até 14/08/2019
  • 4ª: abril 2020, recebimento de inscrições até 16/03/2020
  • 5ª: setembro 2020, recebimento de inscrições até 12/08/2020

Edital e formulários de inscrição estão disponíveis na página da FBN.

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Escrita e tradução em debate e Bloomsday in Rio

Na próxima semana, a tradução e os diversos ângulos que o tema permite estarão em pauta em uma série de mesas e debates.

No dia 13 de junho, às 16h, a Fundação Biblioteca Nacional  e o Programa MFA of the Americas (Master of Fine Arts of the Americas – Stetson University, Florida – EUA) promoverão o encontro Escrita e tradução em debate, com Ana Paula Maia e Alexandra Joy Forman. A escritora carioca conversará com a tradutora e pesquisadora norte-americana sobre as perdas, transformações e negociações envolvidas nos processos de escrita e tradução. A conversa será mediada por Teresa Carmody, escritora e diretora do MFA.

Alexandra Joy Forman traduziu a trilogia Saga of Brutes (Dalkey Archive Press, 2016), reunião das novelas Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos, O trabalho sujo dos outros Carvão animal.

Saiba mais sobre o encontro e as participantes.

Na mesma quarta-feira, 13 junho, às 14h30,  a UFF celebrará o Bloomsday  com uma palestra da professora Dirce Waltrick do Amarante e participação do músico Alex Navar.

Já na quinta-feira, 14 de junho, será a vez do Bloomsday na Faculade de Letras da UFRJ, que, em seguida, promoverá a II Jornada de Tradução. Veja a programação completa.

Data, hora e endereço:

Escrita e tradução em debate, com Ana Paula Maia e Alexandra Joy Forman
Quarta-feira, 13 de junho, 16h
Auditório Machado de Assis, Biblioteca Nacional, Rua México, s/n, acesso pelo jardim,
Rio de Janeiro

Bloomsday in Rio
Quarta-feira, 13 de junho, 14h30
Bloco A, sala 406, Campus Gragoatá, Universidade Federal Fluminense, Niterói

Bloomsday in Rio & II Jornada de Tradução
Quinta-feira, 14 de junho, 9h30 às 22h00
Auditório Mattoso Câmara (F-329), Faculdade de Letras da UFRJ, Rio de Janeiro

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Nelson Rodrigues | Dezembro, 1980

1980, 22 de dezembro, capa do Jornal do Brasil, uma caricatura e dois parágrafos que dão notícias do falecimento de Nelson Rodrigues. O escritor,  jornalista e dramaturgo morrera um dia antes, de insuficiência vascular cerebral. Depois de sete paradas cardíacas e a implantação, “como último recurso”, de um marca-passo, o jornal relata como se buscasse emular o estilo do autor em suas crônicas sobre futebol ou descrevesse uma cena de suas tragédias cariocas.

A edição do jornal pode ser consultada na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional: http://memoria.bn.br/DocReader/030015_10/18056.

Peças, crônicas e a ficção de Nelson Rodrigues já foram traduzidas para o alemão, coreano, espanhol, francês, inglês, hebraico, italiano e polonês. Neste fim de dezembro, com a passagem dos 37 anos de sua morte, destacamos as  obras do autor publicadas recentemente no exterior com o apoio da Fundação Biblioteca Nacional |Ministério da Cultura.

Capas_Nelson

Da esquerda para a direita:

הנשיקה על האספלט [O beijo no asfalto], traduzido por Tal Goldfajn. Ramat HaSharon: Asia, 2015.

Abito da esposa – Doroteia [Vestido de noiva & Doroteia], traduzido por Briana Zaki e Guilermo Pivari. Bolonha: I Libri di Emil, 2014.

La Défunte (suivi de) Pardonne-moi de me trahir  [A falecida & Perdoa-me por me traíres], traduzido por Angela Leite Lopes, Alexandra Moreira da Silva, Thomas Quillardet, Marie-Amélie Robilliard. Besançon: Les Solitaires Intempestifs, 2017.

O homem fatal [Seleção de crônicas a partir de “O óbvio ululante”, “A cabra vadia e “O reacionário”]. Seleção e prefácio de Pedro Mexia. Lisboa: Tinta da China, 2016.

A vida como ela é… . Seleção e prefácio de Abel Barros Baptista. Lisboa: Tinta da China, 2016.

O casamento. Lisboa: Tinta da China, 2017.

La vida tal cual es, 1 e 2

 

 

La vida tal cual es [A vida como ela é], traduzido por Cristian de Nápoli*. Buenos Aires: Adriana Hidalgo, 2012 (volume I) e 2014 (volume II).

 

 

* O tradutor Cristian de Nápoli participou do Programa de Residência de Tradutores Estrangeiros no Brasil 2012/2013  com o projeto de tradução de uma seleção de contos da série “A vida como ela é”.

∗ ∗ ∗

Nelson Rodrigues (Recife-PE, 23/08/1912– Rio de Janeiro-RJ, 21/12/1980)

Verbete extraído do Guia conciso de autores brasileiros = Brazilian Authors Concise Guide, organizado por Alberto Pucheu e Caio Meira, versão inglesa realizada por Ernesto Lima Veras e Mariézer da Silveira e Sá | Fundação Biblioteca Nacional e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2002.

Apesar de ele ter dito que toda unanimidade é burra [uma de suas inúmeras frases antológicas], não resta a menor dúvida de que Nelson Rodrigues é uma das mais inteligentes do país. Esse jornalista, que transformou as páginas futebolísticas em verdadeiro épico nacional, as crônicas diárias em manifestações do ser do temperamento brasileiro e suas próprias memórias em um drama envolvente e desconcertante, causou a maior revolução no teatro nacional, levando-o, pela primeira vez, a uma dimensão a um só tempo cosmopolita, universal e contemporânea. Introduzindo inúmeras inovações capazes de surpreender a crítica e o público, sua linguagem coloquial chocou os beletristas da época. Com grande coesão temática e estrutural, além de um amplo espectro de questões existenciais, sua dramaturgia foi dividida em três grupos: o mítico, o psicológico e o das tragédias cariocas. Por entre peças, contos, romances e crônicas, o escritor nos legou um elenco de frases e personagens cravados na memória brasileira como arquétipos dos abismos da condição humana.

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In spite of having said that all that is unanimous is stupid [one of his many anthological sentences], Nelson Rodrigues is doubtlessly one of the most brilliant unanimity in the country. As a journalist, he changed the soccer pages into true national epic, his daily column into manifestations of the Brazilian people’s innermost temperament, and his own memoirs into an involving and disconcerting drama. He brought about the deepest revolution ever in the national dramaturgy, leading it, for the first time, to a dimension that was at the same time cosmopolitan, universal and contemporary. By introducing a number of innovations capable to take both the critic and the audience aback, his colloquial language shocked the belletrists of his time. Showing a cogent thematic and structural cohesion, besides a wide spectrum of existential themes, his dramaturgy was divided into three categories: the mythical, the psychological and the carioca tragedies. Permeating his plays, stories, novels and newspaper columns, the writer bequeathed a collection of sentences and characters that remained nailed to the Brazilian memory like archetypes of the human condition abysses.

 

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Nelson Rodrigues em 1949. Foto Carlos. Cedoc/Funarte.

 

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