Evento na Biblioteca Nacional discute o conceito de expressionismo e suas implicações na tradução

No evento Línguas da Itália – Le Parlate d’Itália, que será realizado, com entrada franca, nesta sexta-feira dia 5 de junho, no auditório Machado de Assis da Biblioteca Nacional, das 10:30 às 16h, o grupo Esttrada – laboratório de Tradução e Adaptação da Faculdade de Letras da UFRJ irá apresentar o conceito de expressionismo, criado pelo crítico italiano Gianfranco Contini, e as implicações que este conceito traz ao romper com o que conhecemos como literaturas nacionais e literaturas periféricas.

Em conversa, o professor Andrea Lombardi disse:

“Quarenta são as línguas existentes na Itália, sendo apenas quinze línguas estrangeiras, como alemão, francês, grego, croata. Esta variação oferece uma contraposição, de pontos de vista culturais e lingüísticos, enorme dentro da península italiana. O grande linguista e crítico literário italiano Gianfranco Contini, introduziu a questão do expressinismo, ao fazer um paralelo entre o escritor e poeta Carlo Emilio Gadda com a escrita de James Joyce e Guimarães Rosa. O seu conceito de expressionismo define algo de “transbordante”, que transbordar de sentidos, um ir além, um experimentar, um galgar na criatividade, na originalidade, de maneira radical. Neste conceito o expressionismo ultrapassaria os autores modernos do século XX e alcançaria Dante. Dante nesta visão é um expressionista. Usa a língua de maneira criativa, o tempo inteiro, até poderíamos dizer, de uma maneira maníaca. Dentro deste quadro apresentaremos no evento uma série de autores são expressionistas. Eles não são dialetais, portanto não são periféricos. Eles são artistas da palavra, onde o texto, a palavra, tem muito mais importância do que o referencial. Portanto, eu digo que o conceito do expressionismo pode revirar a visão sobre a literatura italiana, e não só da italiana, ele pode mostrar que a ideia que temos de literaturas nacionais, de identidade nacional é totalmente ultrapassada, que está ligada a uma visão dos anos 70, uma visão ideológica que não funciona mais.”

Mais adiante o professor apresenta as implicações do conceito de expressionismo para a teoria da tradução:

“Esta questão está ligada à teoria da tradução. Mas devemos buscar uma teoria da tradução que esteja ligada à teoria da linguagem. Para isto, é necessário analisar os problemas relacionados à ruptura, a ruptura através da originalidade, a ruptura no sentido de romper com alguma tradição, no estilo de Harold Bloom, em “Angústia da influência”, uma ruptura para identificar de uma maneira diferente aquilo como nós examinamos a questão. Eu não sou favorável à visão de tradução como relação de amizade, o próprio Levinas diz isso, o próprio Derrida diz isso, para mim tradução é conflito, como mostra Benjamin. Conflito no sentido de que há um leitor que se coloca em relação a uma tradição com uma relação de conflito e, a partir daí, tenta elaborar uma forma de interpretação que subverta o original lido e possa reconstituir através dos cacos, o vaso de uma forma diferente, utilizando a imagem cabalística de Benjamin. Por que isso? Porque o problema é que não podemos espelhar o mundo. Nós temos que inventar algo de novo para sobreviver intelectualmente e nós temos que inventar a partir da tradição que nós conhecemos. No caso específico do expressionismo, na minha opinião, é o transbordar que rompe as barreiras o tempo inteiro, só que ele foi encapsulado numa visão angusta, limitada, que é aquela de ser representante da periferia. Isto é uma bobagem, porque um grande autor italiano romântico, como Leopardi por exemplo, seria um autor periférico. Ele estava na periferia, se ocupava da periferia, mas ele trabalhava na ruptura da linguagem como outros autores desse tipo. Dante é um que só trabalhava a questão da transformação e da ruptura. Portanto, ele não trabalha com a relação da teologia e a representação da poesia. Ele trabalha com a conversão e a conversão é mais uma categoria hermenêutica do que teológica, a meu ver.”

No evento haverá a leitura dramática de textos de autores napolitanos no original pela atora italiana, Anita Mosca e a diretora teatral e professora Alessandra Vannucci, com o objetivo de apresentar ao público a potencialidade original dos autores ditos periféricos. O professor Andrea Lombardi acredita que é necessário uma nova visão, uma nova leitura:

“O que precisamos é reavaliar esses autores, dar a carga que eles possuem, você não faz idéia da carga que eles têm. Uma carga mimética, gestual, mímica, sonora, timbre, tudo! Você já viu um texto lido pelo Google? “este texto é muito bom” ( o entrevistado imita a leitura por um robô). Então, nós precisamos dar corpo, cor, timbre ao texto, mímica ao texto…Mas o texto não tem mímica, você vai me dizer. E eu vou responder: Mas, o texto tem mímica sim! Ele tem uma série de coisas! E essas características fazem parte da interpretação. Há, por exemplo, a questão da sonoridade. Quando você lê uma tradução há uma sonoridade no texto e isto é uma questão importante para a tradução e assim por diante.”

Cartaz

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s