Uma revista de tradutores e escritores

A pesquisadora e tradutora Julia Tomasini concluiu o primeiro número da revista Galerías, um novo espaço para publicação de literatura brasileira em espanhol. Julia esteve no Brasil em 2014 participando do Programa Nacional de Apoio a Pesquisadores Residentes da FBN (PNAP-R). Bilíngüe e quadrimestral, Galerías contará com diversas informações postadas na internet por autores brasileiros, em blogs, revistas literárias, páginas de editoras e sites especializados para levar informações sobre a produção literária não só para o público como também para as editoras.

Participam do primeiro número Andréa del Fuego, Emilio Fraia, Marcelino Freire, Paula Fábrio, Juliana Frank e Marçal Aquino, traduzidos por Aileen El-Kadi, Lucía Tennina, Bárbara Belloc, Teresa Arijón e Julia Tomasini.

Galerías está hospedada no blog Brasil Papeles Sueltos e aqui, em nossa blogroll.

Por que decidiu criar a revista? De que forma foi organizada?

Há três anos mantenho o blog de literatura www.brasilpapelessueltos.com, onde publico literatura brasileira contemporânea em espanhol. Mas pensei em experimentar outros formatos digitais, e com outro tipo de projeto, no qual pudesse trabalhar com poucos autores e com diferentes tradutores, com um projeto gráfico e um conceito definido.

Eu queria fazer uma publicação de literatura brasileira que não se apresentasse como um guia de literatura contemporânea, como um catálogo, a ideia era apresentar um espaço de diálogo entre línguas, escritores e tradutores.

Cada texto e autor são apresentados pelo tradutor ou por outro escritor através de um breve ensaio ou uma entrevista. Também há entrevistas com as tradutoras que participaram na revista, nas quais falam sobre sua trajetória e a literatura brasileira. Trata-se, sobretudo, de uma revista de tradutores e escritores formando uma parceria literária.

Pensei em uma organização que tivesse a ver com o que queria dizer sobre a tradução de literatura brasileira para o espanhol, por isso pensei em “galerias”, como uma arquitetura da conexão. Não uma galeria como uma vitrine, mas como uma forma de transitar, circular por textos e autores e que se abrem a outros textos e outros autores (e, nesse sentido, é o texto digital o que permite esse percurso através dos links).

O que tentei criar foi um espaço de reflexão sobre este tipo especial de tradução: entre o português e o espanhol (os textos literários da revista são bilíngues), entre literaturas latino-americanas. A ideia é que no futuro, seja publicada literatura de língua espanhola em português, e também, se possível, que as galerias se abram entre outras línguas e outras literaturas para conectá-las com a brasileira.

De que forma selecionou os autores que da primeira edição?

Os autores foram selecionados dentre os convidados para a Feira do Libro de Buenos Aires, que teve São Paulo como cidade convidada. Como o conceito da revista é justamente a conexão, comecei com aquela que melhor conheço: Brasil-Argentina. O fato dos autores terem viajado para Buenos Aires me deu a ideia de que já havia ali uma conexão se estabelecendo. (Alguns autores já tinham uma relação especial com a cidade, outros a visitavam pela primeira vez e houve ainda uma das escritoras que acabou ficando em Buenos Aires).

Eu escolhi autores que fossem muito diferentes, e, do meu ponto de vista, interessantes, com apostas estéticas diversas, e em momentos diferentes das suas carreiras (há escritores que ganharam prêmios, como o São Paulo ou o Saramago, outros que ainda não, alguns deles estão começando a publicar seus primeiros livros e outros, como o Marçal Aquino, já são considerados mestres…). Pensei em autores que pudessem ser interessantes para diferentes tipos de leitores, e um pouco com a ideia de que essa publicação nunca respondesse o que é a literatura brasileira como um todo.

O critério de escolha foi, simplesmente, três escritores que estivessem traduzidos e publicados em espanhol, para que o leitor tivesse possibilidade de conhecê-los, sabendo que os livros estão publicados, e três ainda desconhecidos, para que o leitor tivesse acesso a outros autores ainda não publicados. Nesse primeiro número publiquei só prosa, mas os próximos serão de poesia, teatro; há contos, cantos, uma quase novela e romances (trechos). Também estava interessada na questão do gênero em outro sentido, e por isso escolhi três mulheres e três homens (no início eram quase todas mulheres, pois a literatura brasileira tem muitas autoras que não costumam ser as mais citadas na hora de falar em literatura brasileira, mas não quis “discriminar” os homens).

Como foi o seu primeiro encontro com a literatura brasileira? Você lembra qual foi o primeiro autor brasileiro que você leu?

Eu me encontrei com a literatura brasileira por conta da minha curiosidade (e logo depois, paixão) pela língua portuguesa. Eu aprendi a língua lendo os autores brasileiros e ouvindo MPB. Então foi uma aprendizagem de uma língua muito criativa, sonora, plástica, mas, ao mesmo tempo, eu a sentia, logicamente, muito próxima. Sua literatura era muito singular, mas simultaneamente muito familiar para mim, que tinha estudado literatura latino-americana em língua espanhola, mas não brasileira.

Foi essa doce sensação de enorme familiaridade misturada com a surpresa, admiração e gosto por uma língua e cultura tão únicas e, claro, estrangeiras (embora não sejam tão estrangeiras assim), que me levou a querer pesquisar mais sobre elas e divulgá-las no meu país.

O primeiro autor brasileiro que li foi uma autora, a Clarice Lispector. Foi através dela que entrei no mundo da literatura brasileira, mas foi também meu primeiro contato com a língua portuguesa. (E gostei tanto que dediquei os anos seguintes a estudá-la e traduzi-la.) Depois, vieram Guimarães Rosa, Rubem Fonseca, Machado de Assis e, sobretudo, muitos jovens autores que fui descobrindo através de blogs e páginas de literatura.

Eu não tinha nenhuma formação em literatura brasileira, então para mim a pesquisa e a leitura na internet foram muito importantes, além do fato de que não era fácil achar em Buenos Aires livros de literatura brasileira em português (só na Biblioteca da FUNCEB[i], onde eu ia ler os autores que chamavam minha atenção depois de pesquisar na rede).

O blog e a revista que criei foram feitos tendo essa experiência em mente, algo destinado às pessoas que querem, como eu queria, ler, conhecer e aprender sobre literatura e cultura brasileiras.

Atualmente, graças às traduções dos últimos anos, é mais fácil ter acesso à literatura brasileira (não só Clarice, como Hilda Hilst, não só Jorge Amado, como Sérgio Sant’Anna e Dalton Trevisan, por exemplo).

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A tradutora e pesquisadora Julia Tomasini

Conte um pouco da sua trajetória como tradutora e pesquisadora de literatura brasileira.

Assim que comecei a estudar português e ler literatura brasileira, viajei para o Rio de Janeiro, onde tive acesso às livrarias e bibliotecas, mas também a saraus, leituras etc. Depois, já em Buenos Aires, trabalhei no setor cultural da Embaixada do Brasil, ajudando na divulgação da literatura brasileira no meu país. O programa de subsídios da FBN tinha sido reorganizado e muitas editoras argentinas estavam interessadas em publicar literatura brasileira, mas não conheciam muito desta literatura. Então comecei a traduzir trechos de romances de autores brasileiros contemporâneos para estas editoras. Até então, nunca tinha pensado que a tradução ia ser minha profissão. Foi um tanto por acaso, como parte de um trabalho que adorava, e que me levou a um ofício que me dá muito prazer e no qual trabalham pessoas que admiro muito.

Paralelamente, comecei a estudar formalmente literatura brasileira, e desenvolvi o blog Papeles Sueltos como minha tese de mestrado. O que fiz ali foi juntar o campo da tradução, da edição, com a crítica literária e os meios digitais, em uma publicação que além de publicar minhas traduções de contos ou trechos de romances de escritores contemporâneos, tem uma parte de trabalho de campo sobre o tema (há uma lista do que vem sendo traduzido para o espanhol desde o ano 2000 e links sobre autores, revistas literárias, publicações especializadas, etc.).

Logo depois, comecei a fazer traduções para editoras, sobretudo argentinas, mas também espanholas e inclusive uma costarriquenha, o que acho interessantíssimo. Em alguns casos fui eu que propus o texto, em outros, são as editoras que me pedem um livro específico.

No ano passado, obtive a bolsa de pesquisa do PNAP da FBN, para a qual desenvolvi esta revista, como um desdobramento do meu trabalho de pesquisa sobre tradução de literatura brasileira, ao qual continuo me dedicando.

Para você, qual a importância do intercâmbio cultural promovido através da tradução literária?

É claro que as traduções são fundamentais para o intercâmbio cultural, para acabar com preconceitos, conhecer melhor outras culturas, ler mais vozes.

Mas, sobretudo, acho interessante que os leitores possam ter acesso a autores geniais (ou mesmo nem tão geniais, mas interessantes, que digam alguma coisa para eles), e ter à disposição uma diversidade de leituras… além de experimentar essa dinâmica de aproximação e distância que é tão interessante da leitura de uma tradução. E a distância que nos separa do Brasil não é tanta, embora, ao mesmo tempo, sejam a distância e a enorme diversidade cultural que o país tem o que torna, para nós, tão rica e atraente sua literatura.

[i] Fundação Centro de Estudos Brasileiros, instituto cultural ligado à Embaixada brasileira em Buenos Aires.

 

 

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