Sobre as minhas expectativas

Didier Lamaison*

Estou traduzindo uma correspondência de Clarice Lispector (1920-1977) com as irmãs Tania e Elisa entre 1940 e 1957.

Até hoje, nunca traduzi uma obra de literatura epistolar. Geralmente sou especializado em tradução poética. Eis um primeiro problema interessantíssimo: enquanto tradutor, como caracterizar a diferença da tarefa entre o texto poético e o epistolar? Tentaremos procurar algumas respostas.

Mas traduzir não é propriamente minha profissão, já que fui primeiro professor e depois escritor. (A relação entre ensinar, escrever e traduzir é bastante estreita, e merecera talvez uma meditação específica.)

Por isso, estou muito impaciente para tentar essa experiência de tradutor integralmente e exclusivamente dedicado ao trabalho de traduzir, durante minha “residência”. No exercício da tradução, o tempo consagrado ao trabalho desempenha um papel, uma função essencial. Para quem gosta de palavras-cruzadas, podemos comparar a função “heurística” do tempo, graças ao processo de maturação: como e por que se acha de repente uma palavra anteriormente procurada em vão ?

Por esse motivo, entre outros, quero experimentar uma nova temporalidade do traduzir.

Outra expectativa essencial: o encontro com as pessoas.

Primeiro, os familiares de Clarice ainda vivos: o filho, as sobrinhas, netos etc. – dos quais ela fala na correspondência. Uma sorte única: até hoje, são na minha imaginação pessoas ficcionais, com uma existência puramente literária. Ela conta, por exemplo, o nascimento de Pedrinho em Berna, no dia 10 de setembro 1948. Tudo bem. Mas será que esse Pedrinho nasceu mesmo? Que ele existe mesmo, mora no Rio, anda, come, ama, dança, lê e dorme como qualquer um? Quando uma pessoa nasceu da caneta – sob a pena de uma Clarice Lispector –, como é que ela faz para andar, comer, amar, dançar, ler e dormir?  É um verdadeiro mistério ontológico, para ser resolvido daqui a pouco, espero.

Em seguida, os especialistas lispectorianos, sejam universitários, sejam simples pesquisadores apaixonados. Encontro incontornável para uma multidão de esclarecimentos geográficos, históricos, biobibliográficos e até estilísticos.

Eis algumas das minhas expectativas…

 

*Didier Lamaison é escritor e tradutor. Entre outros trabalhos, traduziu para o francês a poesia de Carlos Drummond de Andrade, Ferreira Gullar, Augusto dos Anjos, Fernando Pessoa. Em 2009, foi eleito sócio-correspondente da Academia Brasileira de Letras. Participa do Programa de Residência de Tradutores Estrangeiros no Brasil com a tradução das cartas de Clarice Lispector reunidas no livro Minhas queridas.

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