A tradução como um processo de apropriação cultural

Luis Aguilar é escritor e tradutor. Sua obra literária foi traduzida para o inglês, português e romeno. Em 2013 ele coordenou para a Mantis Editotres e o Consejo Nacional para la Cultura Y las  Artes—  a  coleção “Poesia de México en lãs lenguas del mundo”, distribuído no Brasil pela  Dobre Editorial, em que diversos autores mexicanos foram traduzidos pela primeira vez para o português.

 

A tradução como um processo de apropriação cultural

 

A tradução literária é uma atividade que exige, por sua natureza, a apropriação do outro (o traduzido) pelo tradutor, com toda a carga de elementos que isso significa. Não é concebível, em termos literários, uma tradução que careça das devidas cargas não apenas emocionais, mas também ideológica, semântica, filosófica, antropológica e até geográfica.

Em uma frase que resume todos os itens acima: é inconcebível uma tradução que não esteja fundada em uma apropriação cultural completa por aqueles que traduzem uma obra literária.

A tradução é, em muitos aspectos, transformar-se no outro; ser o outro; habitá-lo, medi-lo, adicioná-lo, reduzi-lo. Compreender a profanidade de uma voz para assim transpor, de uma língua para outra, todos os contextos que permitam ao tradutor fornecer aos leitores um retrato o mais fiel possível do autor e da obra traduzida.

A Fundação Biblioteca Nacional, em seu programa de residência para tradutores estrangeiros no Brasil, assume, suponho, essa necessidade de apropriação cultural e procura incentivar os tradutores estrangeiros — por meio de coleções e acesso aos acervos — a possibilidade de vivenciar a proximidade com o cenário, as estruturas, a poética e a própria vida daqueles autores pelos quais se têm interesse.

No meu caso, sou grato pela apropriação cultural de Roberto Piva, um autor que felizmente descobri há muitos anos e que me revelou por sua poesia, e em mais de um sentido, a necessidade de enfrentar uma poética cristalizada — não a destruindo, mas sim a reinventando — pois sua premissa é a renovação da voz poética.

É bom esclarecer, para os leitores brasileiros, que Piva no México, bem como na Espanha, é lido como uma das vozes mais revolucionárias e provocantes das últimas décadas; considerado pela crítica como um dos poetas mais inovadores de sua geração. Eu diria, indo além, que Piva está entre os mais inovadores seja das gerações anteriores, seja das posteriores.

Para muitos leitores, ele é o mais autêntico e um dos últimos poetas malditos do tempo presente; um tempo acossado por uma poesia repetitiva ainda que, provavelmente, bem escrita, mas sem um corpo denso de ideias. Lendo Piva, confirma-se a máxima de que a poesia sem beleza pode resultar em academicismo; mas beleza sem ideia não chega a lugar nenhum: é oca.

Em Piva tudo é provocação; não assume desprazer nem faz pose diante da língua, mas a despe expondo-a como é, propiciando em sua poesia uma visão dura do mundo; assim, apresenta um habitat sem falsos ornamentos nem metáforas ocas; o que nele vemos é a realidade — cruel — em forma de beleza.

Minha expectativa atual com o trabalho de Roberto Piva é procurar, por meio das coleções e entrevistas disponíveis, me aproximar de sua concepção de mundo; perceber os detalhes minuciosos que propiciaram em sua poesia uma energia invejável e dotaram o poeta de uma aura do outro mundo — literal e metaforicamente — que permite que sua obra não apenas não envelheça, mas ao contrario que se renove a cada leitura.

Nesse processo, almejo a uma contínua e permanente renovação de sua obra a cada abordagem, por meio dos diálogos e aproximação com sua poética; com o único propósito de que à minha leitura cheguem todas as possibilidades de sua voz para que a tradução ofereça uma imagem o mais próximo possível da genialidade de Roberto Piva.

Procuro encontrar, com todos os materiais, conselhos, comentários e abordagens disponíveis a possibilidade de “vestir” a voz poética de Roberto Piva em espanhol, mas sem modificar a alma de sua poesia. Esse deve ser o objetivo de toda tradução literária.

 

LUIS AGUILAR  poeta e tradutor  Monterrey, México; 28 de agosto de 2014.

LUIS AGUILAR
poeta e tradutor
Monterrey, México; 28 de agosto de 2014.

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