A HQ ‘Estórias gerais’ ganha edição francesa

Autor e tradutores falam sobre o processo de tradução

A editora Sarbacane lançou recentemente o álbum Le Brigand du Sertão, edição francesa da HQ brasileira Estórias gerais, de Wellington Srbek e Flavio Colin (Editora Nemo, 2012). A obra ganhou o Troféu HQ MIX nas categorias “Melhor Graphic Novel”e “Melhor Roteirista Nacional” e o Prêmio Angelo Agostini de melhor roteirista e melhor desenhista.

O roteirista Wellington Srbek nos concedeu uma entrevista em que fala sobre as características que levaram o livro a ocupar um lugar de destaque no cenário nacional, sua participação na tradução e também sobre como é para ele a experiência de chegar até os leitores franceses. O desenhista Flavio Colin, referência dos quadrinhos nacionais, faleceu em agosto de 2002.

FBN: A HQ Estórias gerais é considerada um clássico brasileiro, recebeu ótimas críticas e ganhou vários prêmios. O que, para você, é responsável por alçar o livro a esse posto?

Wellington Srbek:Acredito que o reconhecimento e sucesso da HQ se devem realmente à sua qualidade. Ao meu roteiro original e aos desenhos marcantes de Flavio Colin, que têm conquistado os leitores desde a edição independente em 2001.

FBN: O livro é ambientado no sertão mineiro no início do século XX. O tema não é muito recorrente nas HQs.  O que o levou a escolher esse eixo temático?

WS: Sou de Minas Gerais e sou formado em História. Embora tenha nascido na capital, o ambiente do interior e a cultura popular sempre me interessaram criativamente. Temos na HQ o jornalista Ulisses Araújo que faz uma viagem de descoberta e apaixonamento por aquele Brasil interior, tão rico natural e culturalmente, mas também tão esquecido. Então, em parte, “Estórias Gerais” reflete minha própria travessia pessoal, de alguém que nasceu numa cidade grande, mas que descobriu e se apaixonou pelas maravilhas de um Brasil mais antigo e talvez mais autêntico.

FBN: A edição francesa vai fazer o livro atingir um público diferente. O que você espera dessa experiência?

WS: O simples fato de ter o álbum publicado em outro país já é uma alegria em si. Poder chegar a mais e mais leitores é a vocação de toda obra, e como consideram “Estórias Gerais” uma grande HQ, “um clássico de nossos quadrinhos”, é ótimo poder compartilhá-la com leitores de outros países!

FBN: Como foi sua relação com os tradutores? De alguma maneira você se envolveu no processo de tradução?

WS: Apenas prestando consultoria em casos bem específicos, de algumas expressões que têm propositalmente sentido duplo no original, mas que precisavam de uma definição específica para a tradução em francês. Mas foram poucos casos, e não participei da tradução.

Os tradutores Fernando Scheibe e Philippe Poncet deram um depoimento a respeito do processo de tradução. Fernando conta que fazia os primeiros “jatos de tradução” para o francês e Philippe trabalhava em cima desse texto, já traduzido, refinando a tradução inicial.

Os dois ficaram muito satisfeitos com o resultado final, além disso, acharam a experiência de trabalhar com um texto que reflete tantos aspectos da cultura brasileira, incrível. O cuidado com que trataram a história enquanto traduziam fez com que a voz da narrativa original se mantivesse presente na edição francesa.

Brigand du Sertão

Fernando Scheibe, tradutor brasileiro:

“Para mim, o processo de tradução de Estórias Gerais foi riquíssimo, principalmente por dois motivos: em primeiro lugar, a excelente qualidade do texto do Wellington, ágil, saboroso, inteligente e comovente, criando, articulado com a narrativa visual do grande Flávio Colin, uma estória, ou um feixe de estórias, fascinante; em segundo lugar, pela parceria que estabeleci com Philippe Poncet: tenho que admitir, o grande responsável pela qualidade do texto em francês.

“De certa forma, minha maior responsabilidade foi a de garantir a exatidão da exegese do texto original. O que, justamente, é mais fácil para um leitor brasileiro, acostumado a falar, ouvir, e ler Ramos e Rosas e Regos… Então eu fazia um primeiro jato da tradução, vertendo quase que literalmente o texto para o francês. Aí era a vez do Phil: ele é que transformava todo aquele carbono em diamante, dando esse salto de recriar aquilo num francês tão ágil, saboroso, inteligente e comovente quanto o português do original.

“Modéstia à parte (mas, na verdade, minha parte é modesta), acho que o resultado ficou muito bom. O leitor francês pode agora ter acesso a essa estória que além de comover põe em cena aspectos importantes de nossa história: as contradições, a beleza e a violência, de um Brasil profundo; o papel do ‘homem de letras’ (o personagem-narrador Ulysses é uma espécie de Euclides da Cunha que se dá conta da barbárie da ‘civilização’ e da cultura da ‘barbárie’); e assim por diante.

Em suma, foi bárbaro.”

Philippe Poncet, tradutor francês:

“Detalhe: quem me convidou para ser parceiro-tradutor foi o Fernando. Nos encontramos em junho de 2013 em Paraty, sob auspícios da Fundação Biblioteca Nacional e da Universidade Federal Fluminense, por ocasião de um encontro entre tradutores brasileiros e franceses. O Fernando, já contratado para ser o tradutor da HQ brasileira Estórias Gerais queria trabalhar conjuntamente com um tradutor francês (ou seja do português para o francês). Não demorei para topar! Sempre me interessei pela evolução do gênero HQ no Brasil (desde a ‘velha guarda’ do Pasquim até os desenhistas de hoje – Allan Sieber, André Dahmer, Chiquinha e…muitos outros). Uma tradução a quatro mãos para um ‘romance gráfico’ tão relevante como Estórias Gerais era uma perspectiva tão sedutora quanto inesperada.

“Devo dizer logo que discordo absolutamente do Fernando quando ele pretende, com sua modéstia habitual, que eu fui o ‘grande responsável pela qualidade do texto francês’. Ele fez o trabalho mais difícil, além de frustrante, que consistia em localizar e “desminar”, no texto, numerosas armadilhas e dificuldades. Nosso método? Simples: Fernando me mandava um primeiro jato da tradução em francês, eu fazendo depois minhas correções. Afinal, confesso que eu fui mais revisor do que tradutor. Existe uma pessoa mais chata do que um maldito revisor? Sabe, aquele cara que olha para teu trabalho e vem te dizer tipo assim: ‘parabéns, meu filho! Grande trabalho. No entanto, acho que isso e aquilo poderia ser traduzido de outra forma… Ainda bem que o Fernando mora em Florianópolis e eu em Natal (RN)! Brincadeira, é claro. O Fernando Scheibe tem a classe dos grandes tradutores: é da paz. Mas, cuidado, com ele você tem que ser tão convincente quanto esperto, pra ficar à altura.

“Eu lembro que estava meio obcecado pelo número de palavras que deviam caber… nos balões! Isso, acho eu, é a dificuldade maior na tradução de uma HQ. Você tem uma limitação absoluta: o tamanho do balão. Sobre o assunto, Fernando é que sabe melhor do que eu: ele cometeu numerosas traduções de vários mestres da Bande dessinée francesa.

“Devo dizer logo que concordo absolutamente com o parceiro. Acho que o resultado final foi bom. Mas como saber? Fernando: eu te pago um champagne Moët & Chandon quando alcançarmos a vigésima reimpressão do Brigand do Sertão! Estou exagerando? Tudo bem, vamos dizer a partir da segunda reimpressão…Um brinde para você, eu, e os leitores.”

 

 

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