“Em Porto Alegre, respirei Erico Verissimo”. Tradutor espanhol visita a casa do autor e se reúne com pesquisadores

ContinentePere Comellas, que realiza a  versão para o espanhol de O Arquipélago, terceira parte da trilogia O Tempo e o Vento, obra clássica de Erico Verissimo,  editada na Espanha pela A. Machado Libros, dá depoimento sobre o período de pesquisa que acaba de encerrar no Brasil. Comellas veio ao país com bolsa do Programa de Residência de Tradutores da Fundação Biblioteca Nacional (FBN). O livro inicial da trilogia, O Continente (primeira parte), recém-lançado em Madri pela Machado Libros,  conta com traduçao de Basilio Losada (a capa é reproduzida ao lado). A tradução integral da trilogia é apoiada pela FBN. Comellas consultou no Rio os arquivos mantidos pelo Instituto Moreira Salles (IMS) e, em Porto Alegre, encontrou-se com pesquisadores e foi recebido por Luis Fernando Verissimo e sua mulher, Lucia, na casa onde o autor viveu.   

Por Pere Comellas*

O professor Luís Augusto Fischer, da UFRGS, observou como o escritor Erico Verissimo mudou os seus rumos literários depois da primeira estadia nos Estados Unidos. Até então, Verissimo era um escritor de vocação cosmopolita. Através do seu trabalho como editor e tradutor na Globo, de Porto Alegre, Verissimo começara a disponibilizar para o leitor brasileiro algumas das grandes obras da literatura norte-americana e inglesa (o que, segundo alguns especialistas, nunca lhe foi perdoado por uma certa crítica). De repente, volta dos Estados Unidos e publica O Continente, isto é, um romance com uma perspectiva completamente gaúcha. Perspectiva no seu sentido mais literal: um olhar desde o interior do Rio Grande do Sul. Um olhar para o Brasil todo, e para o mundo, mas bem fincado nas coxilhas da cidade imaginária de Santa Fé, não longe da sua cidade de nascimento (as cidades imaginárias também se situam no mapa; Verissimo foi um especialista nisso: eu vi os mapas de Santa Fé e de Antares desenhados pelo próprio escritor).

Essa viagem norte-americana, esse distanciamento, teria acabado com uma vaga prevenção de Verissimo contra o provincianismo literário, contra o chovinismo, contra a folclorização. É possível ter uma voz bem situada e enraizada e não ser provinciano, nem folclórico (lição que, por certo, a literatura norte-americana aprendeu cedo). Talvez eu tenha a sorte de aprender isso mesmo e talvez a estadia no Brasil no quadro do Programa de Residência de Tradutores venha a contribuir para essa aprendizagem.

No Rio, na Fundação Moreira Salles, tive a oportunidade de ver alguns papéis do Erico Verissimo. Por exemplo, um dos originais de O Arquipélago, o romance que andamos a traduzir, a Teresa Matarranz e eu (e que nos permitiu optar ao programa). “Um dos originais” pode parecer uma expressão contraditória, mas em Verissimo não é, e talvez não seja na maioria dos escritores. Verissimo criava um original, que com frequência oferecia a algum amigo ao tempo que mandava para a editora (ou inclusive antes disso). Depois, no processo de publicação, ele corrigia, substituía, mudava, tirava e acrescentava, ia criando sucessivos “originais”. Conferi o texto da minha edição (uma edição portuguesa) com algumas das páginas datilografadas e cheias de anotações em caneta vermelha, azul ou roxa. Desenhos pelos cantos. Uma beleza. Um monte de diferenças. Uma página revisada e um pouco mais além o mesmo parágrafo re-revisado. O inferno e o paraíso de um estudioso da genética do texto.

Também no Rio está uma parte da correspondência pessoal do autor. Será que é lícito ler as cartas dos outros, mesmo que eles sejam autores célebres? Acho que não, mas é um crime muito bem visto, e a impunidade é total! Sob o pretexto de conhecer melhor o autor, peço à amável e competente documentalista uma lista de cartas. Assuntos familiares, assuntos particulares, também assuntos literários. De repente, numa breve carta de Verissimo a Clarice Lispector, o seguinte comentário: “Estão fazendo uma onda danada em favor de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Dizem que o homem é gênio e que o livro é das grandes obras da Humanidade. Não consegui ir além da página 20. Devo estar ficando muito burro. Vou tentar de novo, though”. Verissimo acabou por gostar, certo. Mas que alívio, que alegria para qualquer um de nós, que tem os seus Grandes Sertões (chamem-se Ulisses, The Sound and the Fury ou Os Lusíadas) cuidadosamente guardados no armário e que tanta vez sentiu que devia estar ficando muito burro!

Foi, no entanto, em Porto Alegre, onde realmente respirei Verissimo pelos quatro cantos. Obrigado, Regina Ungaretti e Sabrina Lindemann, e o resto do time do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, que me acolheram e me procuraram alguns encontros inesquecíveis. Obrigado, Waldemar Torres, pela hospitalidade e a conversa de uma tarde na sua casa, onde descobri o Verissimo tradutor. Obrigado, Flávio Loureiro Chaves, pela sua paciência com a minha ignorância (e pelos livros oferecidos, que espero que pelo menos a impeçam de crescer). Obrigado, Márcia Ivana Lima e Silva, pela sua lição sobre Erico Verissimo e sobre o arquivo do CEEE (onde pude ver mais originais cheios de rabiscos, desenhos e correções), mas sobretudo pela sua amizade (a pequena Irene e a sua mãe mandam uma saudação). Obrigado, Lúcia e Luis Fernando Verissimo, por me abrirem a casa do Erico que é a sua e por permitirem-me roubar-lhes uma fotografia (e ainda por cima um exemplar do Arquipélago, os três volumes!). E obrigado aos amigos velhos de Porto Alegre que tive a oportunidade de rever: talvez ainda o destino volte a nos juntar.

O Brasil é um país surpreendente. Tomara que fosse melhor, porque gostamos dele e por isso gostaríamos que fosse perfeito. Não é nem vai ser, claro. Tomara que pelo menos fosse mais igualitário. O povo do Brasil ofereceu-me a possibilidade de aproveitar esse programa de residência para tradutores (o povo não foi consultado, claro, mas pagou as despesas, e seus representantes da Fundação Biblioteca Nacional fizeram da nossa estadia uma delícia) e só posso retribuir esse presente tentando difundir com o meu trabalho e as minhas pobres possibilidades a sua cultura literária. Afinal, a tradução é a única chance que tem a literatura de ser realmente universal.

* Professor Titular da área de português da Universidade de Barcelona, o tradutor Pere Comellas veio ao Brasil para trabalhar sua tradução do romance “O Arquipélago”, de Érico Veríssimo – 3ª parte da trilogia “O Tempo e o Vento” – durante o Programa de Residência de Tradutores Estrangeiros da FBN. Formado pela mesma universidade em que hoje trabalha, Pere já traduziu o segundo volume da série, “O Retrato”, e dessa vez divide a tarefa com uma colega, Teresa Matarranz López, que também participa do Programa de Residência de Tradutores no Brasil.

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