Uma estadia no Brasil – Notas avulsas

* Dominique Nédellec

Dominique NédellecAlguns elementos recuperados nas cadernetas preenchidas durante a minha estadia:

– No Palácio do Catete, muito interessante exposição sobre a Guerra dos Canudos, com raras fotografias tiradas durante o conflito por Flávio de Barros. Reencontro aqui esta frase repetida tantas vezes no filme alucinante do Glauber Rocha, “Deus e o Diabo na terra do sol”, frase linda atribuída ao Antônio Conselheiro, “o beato endiabrado de Canudos”, “o emissário das alturas” (Euclides da Cunha): “O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”. Gosto imenso da palavra “jagunço”, também da palavra “cangaceiro”.

– Perto de Teresópolis, em plena mata atlântica, existe um Canton Swiss Mountain Resort! E só agora descubro a palavra “cafona”.

– Outra surpresa filológica: debaixo de bonitas embaúbas, vislumbramos na roça vacas, carneiros (ou serão ovelhas?) e até uma seriema plácida. Sou informado por fonte fidedigna (o Rubens Figueiredo) de que “o filé-mignon” (que vem do francês “filet mignon”, expressão utilizada para designar uma parte particularmente saborosa de um animal apreciado por sua carne) pode servir no Brasil para se referir à qualquer coisa considerada primorosa, o “filé mignon” é o “nec plus ultra”. Para mim, é uma inesperada extensão do domínio do filet mignon, para parafrasear um dos escritores franceses mais traduzidos no mundo.

– No jornal: o crescimento da frota de veículos no Brasil nos últimos dez anos foi de 122 % enquanto o da população de 12 %.

– “Ondulações ao longo da via”: Denominação bastante sensual comparado ao triste equivalente francês: “ralentisseurs”. Ondulações ao longo da via (ou da vida?), eis uma expressão tão promissora como aquelas formas arredondadas que servem para abrandar a circulação, mas de um modo suave e balanceado. Ondulações: bossa nova. Ralentisseurs: apito policial.

– Vi-me com dificuldade para chegar até a Vista Chinesa, no Rio. Paro vários táxis, mas todos já têm “compromissos”. Nenhum quer se comprometer comigo, devo ter uma cara demasiado comprometedora. Peço a um deles: “qual seria o preço para subir até à Vista Chinesa, só para ter uma idéia?” Carrancudo, responde: “Eu não trabalho com idéias, trabalho com relógio!” E arranca na hora. Idéias e relógio, não pensava que pudesse ser assim tão incompatível.

– Roda de samba, Santa Teresa no Rio, excerto dumas das canções do bloco Aconteceu:
“Ecoou um batuque original, na esquina da felicidade.
Espanta o banzo, Aconteceu é carnaval.
É folia do povo, alegria geral.”

– Sobre a fachada de um prédio na saída do Rio de Janeiro, um enorme grafite: “Temos medos bobos e coragens absurdas.” Acho a frase espantosa. Com a ajuda de São Google, descubro que a frase afinal é da Clarice.

– Subo no ônibus que vai me levar do Rio de Janeiro até São Paulo. Todos os passageiros estão sentados. O motorista levanta-se e fala com o maior fleuma: “Bom dia, o meu nome é Roberto. O cinto de segurança é de uso obrigatório. Boa viagem. Deus os acompanhe”. Para viajar, é melhor ter as duas coisas, Deus e o cinto de segurança, nunca se sabe. Ocorre-me que Roberto também podia ter dito: “Deus é de uso obrigatório. Boa viagem. Que o cinto de segurança os acompanhe”.

– Falando em Deus, encontro num livro recomendado pelo Michel Laub, O Púcaro Búlgaro, do Campos de Carvalho, a frase seguinte: “o que se convencionou chamar a Bulgária é sobretudo um estado de espírito. Como Deus, por exemplo.” Para quem não conhece, lembro que o livro constitui uma referencia incontornável no domínio da Bulgarologia ou Bulgarosofia, relatando algumas aventuras dos vultos principais do MSPDIDRBOPMDB (Movimento Subterrâneo Pró-Descoberta ou Invenção Definitiva do Reino da Bulgária ou Pelo Menos de Búlgaros).

– No Museu da língua brasileira: “nossa língua é o nosso melhor retrato”. Haroldo de Campos: “o povo é um inventa-línguas”. Pessoa: “quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma”. Os tupinambás tinham muito gosto pelo improviso poético. O grande poeta músico era reverenciado até por grupos inimigos. Também aprendo com agrado que no século XIX, com a mudança da Corte portuguesa no Rio de Janeiro, “falar com o sotaque português passou a ser chique”. Todos os dias aqui no Brasil, as pessoas me perguntam se sou português por causa do meu sotaque carregado. Deve ser outra maneira sutil de me informar que me acham muito chique.

– São Paulo, restaurante Consulado mineiro, perto da praça Benedito Calixto: o cardápio é um poema para mim. Escolho um quibebe com carne de sol, que soa tão bem no paladar como nos olhos como no ouvido. Poema total, portanto.

– Na Paulista, vejo “O som ao redor”, filme magnífico do Kleber Mendonça Filho. Na escuridão da sala de cinema, rabisco umas coisas: “aqui tem o quarto da empregada, com janela”; “está firme”; “vou nessa”; “Lampião também era cego de um olho”; “gostei do cara”; “é uma sacanagem”. No filme, ouve-se a música que o Gainsbourg tinha composto para “Le Pacha”, filme do Georges Lautner (1968).

– Ainda sobre Lampião, verbete do Oswald de Andrade, no seu Dicionário de bolso: “vírgula na história do Brasil”. Do mesmo Oswald, no Museu da língua brasileira: “Tupi or not tupi”.

*Dominique Nédellec é um tradutor francês e participou do programa de residência de tradutores estrangeiros no Brasil com a obra “Diário da Queda”, de Michel Laub.
*Foto: Brian Graham.

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s