Catapultada

Wanda Jakob*

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Essa vez será a minha terceira vez no Rio. O livro que estou traduzindo para o alemão, A Guerra dos Bastardos de Ana Paula Maia, foi uma das minhas descobertas durante uma primeira e breve visita em julho de 2011. Além desse livro, me deparei com uma vibrante cena cultural em São Paulo, com a linda costa verde entre São Paulo e o Rio, e, durante a FLIP, com uma cena de jovens
autores, poetas, agentes e editoras. E, logo depois, meras 36 horas no Rio, me ofereceram encontros, passeios e um primeiro sabor da cidade.

Através de uma oficina de tradução em julho de 2012, de novo em Paraty, entrei mais profundamente em contato com o meio literário brasileiro. Desta vez a troca de ideias e o trabalho intenso com textos de tradutores brasileiros e alemães provocaram um diálogo mútuo que continua tendo repercussões quase diárias. A confrontação com o olhar do outro, às vezes alienado, às vezes alienador, transforma o próprio olhar. Palavras duvidosas, invenções de gíria tradutorial, a sorte de ter sido poupada pela onda de bactérias terríveis, quase acabando com nosso pequeno mas ilustre grupo, amizades afetuosas e maravilhosos passeios de barco completaram a semana. Participei de uma mesa no II. Colóquio Internacional Intermediações Culturais, falando sobre a minha experiência ao traduzir a prosa de Carlos Drummond de Andrade. A mesa foi aumentada por uma rodinha de tradutores e crianças recitando “No meio do caminho havia uma pedra” em várias línguas, no meio da praça principal em Paraty, momento comovente e leve ao mesmo tempo, contrariando de certa maneira até as palavras do próprio poeta.

De certa maneira, fui catapultada em direção ao Brasil e ao Rio de Janeiro através de apenas sutis incentivos meus. Estava somente procurando saber mais sobre as diversas escritas contemporâneas do país. Os encontros no Brasil acabaram mudando não só as minhas ideias sobre o país e sua literatura, mas sobre o meu próprio trabalho. Virei tradutora de literatura brasileira.

No fim do livro que estou a traduzir, o personagem narrador acaba de ver a neve pela primeira vez. Ainda não sei o que será, mas estou sentindo que nessa terceira estadia no Rio algo acontecerá pela primeira vez. Tanto a cidade quanto as pessoas na rua, nos botecos, nos encontros literários, e a paisagem cultural me mostram incessantemente faces diferentes. Também mudei, sigo mudando e chego como um outro eu ao Rio a ser transformado e transformar de novo.

*Wanda Jakob é uma das participantes do Programa de Residência de Tradutores Estrangeiros no Brasil. Ela está vertendo para o alemão o livro “A Guerra dos Bastardos”, da carioca Ana Paula Maia.
Foto: Konrad Festerer

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