Confira a tradução francesa do conto “Bloqueio”, de Arthur Dapieve

Um dos tradutores selecionados para o Programa de Residência de Tradutores Estrangeiros no Brasil da FBN, Philippe Poncet, é um grande admirador da obra do escritor Arthur Dapieve. Com o objetivo de divulgar ainda mais o trabalho do autor na França, ele realizou a tradução do conto “Bloqueio”, escrito por Dapieve e inédito no Brasil. Disponibilizamos, então, aqui as duas versões do conto (em português e em francês).
***

Bloqueio

A rua em declive é ladeada em toda a extensão por muros altos. Os muros estão pintados de verde-escuro e se emendam uns nos outros

como se fossem os mesmos dois muros e cercassem apenas duas imensas casas. Uma no lado par, outra no lado ímpar da rua em declive. Tal impressão é desfeita quando se nota que de tantos em tantos metros se abrem portas no que seriam os dois únicos muros. Portas pequenas para os pedestres. Portas maiores para os automóveis. Em algumas casas, em madeira de lei. Em outras casas, em alumínio escovado. Nenhuma das portas está aberta. Por cima dos muros verde-escuros, não se escuta nenhum ruído. De acordo com a estação, o dia ou o horário, às vezes podem ser ouvidos ou o som oco do choque de uma barriga contra uma superfície aquática ou a batida alta e ritmada que põe a tremer os paralelepípedos que pavimentam a rua em declive. No momento, está tudo silencioso

por trás dos muros contínuos e algo monótonos em seu verde-escuro. Esses muros se tornam ainda mais verdes e ainda mais escuros porque plantas trepadeiras sobem por quase todos, numa confusão de folhas, galhos e, muito eventualmente, pequenas flores sem cheiro. Há pontos em que as árvores enraizadas tanto dentro quanto fora do terreno das casas indevassáveis despejam as sombras de seus galhos sobre a estreita calçada de cimento que contorna os muros. As sombras das árvores são como áreas mais claras dentro da grande sombra mais escura que se projeta pouco a pouco a partir do morro, na medida em que do outro lado se põe o sol. Sua total ausência criará uma terceira sombra, ainda maior, mais escura e mais duradoura. O morro tem o formato de um canino solitário e desgastado pela ação do tempo. Ele é encimado por uma grande estátua de concreto branco com os braços abertos. As ruas em declive calçadas de paralelepípedos como que brotam da rocha do morro. Conforme descem, sempre emparedadas à esquerda e à direita por muros altos e verde-escuros, as ruas deságuam umas nas outras, como afluentes de um outro rio de pedras que nunca aumenta de largura até chegar ao asfalto. A derradeira rua escorre sinuosamente em direção ao murmúrio surdo do tráfego que mais se pressente do que se ouve, lá embaixo, num lugar que os muros altos deste ponto de uma das ruas tributárias não permitem ver. O que se ouve aqui são apenas insetos e pássaros que se ocultam na hera e nos galhos. Um pouco adiante na rua em declive e de seus infinitos muros verde-escuros há um ângulo reto à direita. Quando se dobra essa esquina depara-se com a traseira de um automóvel prateado. Como a rua em declive calçada por paralelepípedos nunca deixa de ser estreita, ele está estacionado ao longo da via, com as duas rodas direitas sobre a calçada de cimento, de modo a deixar a passagem livre para outros automóveis. Na calçada, sobra espaço para uma pessoa magra passar de lado, desde que tome cuidado para não esbarrar no espelho retrovisor.

O espelho retrovisor mostra um homem numa cadeira de rodas.

O homem na cadeira de rodas está parado. Ele olha para o espelho e pensa na má sorte. Ele decidiu descer a encosta por conta própria quando a cooperativa de táxis adaptados para o transporte de cadeirantes avisara, depois de vinte e sete minutos de espera ao lado do telefone, que todas as viaturas estavam ocupadas – e assim continuariam no horizonte visível. As cooperativas de táxis comuns não ofereceram panorama mais animador. O primeiro carro disponível poderia chegar à porta da casa do homem em, no mínimo, meia hora. Se decidisse esperar o primeiro carro disponível, o homem perderia a consulta agendada com sete meses de antecedência. Noutros dias, dias em que não havia tamanha precisão em descer, ele fizera isso sem problemas. Em quinze minutos, não mais, estava na esquina da derradeira rua de paralelepípedos com a primeira rua de asfalto, mão direita esticada para um táxi comum. Agora, parado atrás do carro prateado, o homem se ergue ligeiramente, mãos cautelosamente apoiadas nos braços da cadeira de rodas, para não fazê-la deslizar, e estica o pescoço. Para a frente, busca alguém dentro do veículo estacionado. Para trás, busca uma porta na qual possa acionar o interfone e chamar o motorista. Não há ninguém dentro do veículo, nem nenhuma porta por duas dezenas de metros, até a esquina em ângulo reto. O homem na cadeira de rodas estica novamente o pescoço para a frente e julga perceber, três metros além do carro, uma reentrância na parede de hera. Ali poderia se esconder a porta da casa. Ele olha para os paralelepípedos da rua. Avalia suas chances de descer na cadeira, contornar o carro, subir, se erguer, tocar o interfone. Como o meio-fio é alto, as chances lhe parecem ínfimas. As duas rodas no alto da calçada e as duas rodas embaixo, no calçamento em pedra da rua em declive, deixam o carro inclinado lateralmente num ângulo de 21 graus. Para o homem, somada a seu próprio peso e à força da gravidade puxando-o um pouco para a direita, essa inclinação significaria mergulhar de cabeça nos paralelepípedos no instante em que as rodas dianteiras da cadeira perdessem contato com a calçada. Ele sobe o olhar para o outro lado da rua. Acima do muro verde-escuro, ele vê apenas uma janela no andar superior da casa fronteira. A janela está fechada e semiencoberta pelos galhos das árvores, na sombra. Não há luz acesa além do vidro. O homem na cadeira de rodas enfia a mão direita no bolso dianteiro direito de sua calça. A mão se agita dentro do bolso durante um ou dois minutos. Ela emerge vazia. Pela primeira vez desde que está bloqueado ali, o homem cogita dar meia-volta e subir a rua por quase três centenas de metros, até a sua própria casa, deslizar rampa acima, abrir a porta e telefonar mais uma vez para a cooperativa de táxis adaptados a cadeirantes. Ou ao menos descer a ladeira de novo, agora com o telefone celular no bolso dianteiro direito de sua calça. O homem na cadeira de rodas olha para o relógio no pulso esquerdo. Ainda tem um pouco menos de uma hora até a consulta agendada com sete meses de antecedência. Morro acima, ele levaria vinte minutos, talvez mais, até chegar em casa. Se a cooperativa de táxis adaptados a cadeirantes tivesse baixado a expectativa de atendimento para vinte minutos, ele teria mais vinte minutos para chegar ao consultório do médico. O relógio no pulso esquerdo marcava uma hora espremida entre o engarrafamento de depois do almoço e o engarrafamento da volta para casa. Vinte minutos entre o seu bairro, encarapitado na encosta do morro, e o bairro do consultório, coalhado de consultórios, não era um tempo de todo impossível. Não se o trânsito estivesse ligeiramente melhor do que o normal. O homem na cadeira de rodas lembra que o seu consultório de destino fica no extremo oposto do bairro dos consultórios, perto da enseada, o que complica qualquer locomoção, a qualquer tempo. Ele se ergue na cadeira e estica novamente o pescoço, para a frente e para trás. Nem uma pessoa se materializou dentro do carro estacionado com as duas rodas direitas sobre a calçada nem outra porta se abriu por acaso no muro que segue por duas dezenas de metros às suas costas. Uma hipótese tola e assustadora surge na sua mente. Se o motorista ou a motorista do automóvel estivesse em visita até depois do chá das cinco, o homem na cadeira de rodas perderia a consulta agendada e teria de esperar mais sete meses até chegar a nova data. O homem na cadeira de rodas não tem certeza se dispõe de tempo. Nesse ponto dos pensamentos, escuta o motor de um carro, a se aproximar pela rua em declive calçada por paralelepípedos. O modo como o barulho do motor bate e rebate nos muros verde-escuros altos e contínuos o desorienta por alguns instantes. Não consegue saber se o veículo sobe ou se o veículo desce o morro. O homem na cadeira de rodas só percebe que o veículo sobe o morro quatro segundos antes de um jipe amarelado, de luxo, modelo importado, surgir por trás do carro inclinado de lado num ângulo de aproximadamente 21 graus. Ele ainda ergue os braços, pede ajuda e grita “ei!” três vezes, tão alto quanto pode. O jipe amarelado, de luxo, modelo importado, é um veículo de chassi elevado. A pessoa que o dirige, oculta pelo vidro coberto por densa película negra, teria que olhar para o lado e para baixo a fim de enxergá-lo. A pessoa ao volante precisaria saber que o homem na cadeira de rodas estava ali, necessitado de ajuda. Como ela não sabe, o jipe amarelado, de luxo, modelo importado, passa sem diminuir a velocidade por aquele trecho da rua de paralelepípedos. O homem na cadeira de rodas fica quieto por dois ou três minutos, arfando, recuperando o fôlego, até o barulho do motor importado se extinguir em algum ponto não muito distante, morro acima, após ter feito manobras. Ele gira bruscamente as rodas da cadeira e toma o mesmo rumo. Chegar em casa e alcançar um telefone é a única chance de estar no consultório no horário agendado sete meses atrás. O homem vence as duas primeiras dezenas de metros com facilidade, até a esquina de ângulo reto. Ao dobrá-la, ele dá de cara com a dianteira do jipe amarelado, de luxo, modelo importado, estacionado quinze metros adiante. Não há mais sinal do motorista ou da motorista. A pessoa oculta pela densa película negra colada ao vidro tomou o mesmo cuidado da pessoa que estacionara o carro prateado morro abaixo. De modo a deixar o trânsito livre para outros veículos, o jipe amarelado, de luxo, modelo importado, está estacionado com as duas rodas direitas sobre a calçada. Por ser mais alto, o ângulo de seu chassis em relação ao solo é um pouco menor, de 17 graus. O espaço deixado entre a carroceria reforçada e o muro verde-escuro é suficiente para uma pessoa magra se esgueirar de lado, desde que prenda a respiração ao passar pelo sólido espelho retrovisor. De longe, o homem na cadeira de rodas enxerga o próprio reflexo borrado no lado convexo e fosco da estrutura preta que abriga o espelho. Calcula estar preso num trecho de pouco mais de 35 metros de calçada estreita, ladeada à esquerda pelo muro verde-escuro e à direita pelo leito da rua de paralelepípedos. O homem na cadeira de rodas ri. Ele pensa no que mais poderia lhe acontecer.

Começa a chover.

O homem na cadeira de rodas sente o primeiro pingo na lente esquerda dos óculos. Não há um segundo pingo. O que cai do céu em seguida é o início de uma torrente contínua de água, como se a estátua de braços abertos no alto do morro tivesse acionado um chuveiro ou começado a suar copiosamente. O homem abaixa a cabeça. Tenta proteger os óculos da chuva. A água desce pela testa, se esgueira pelas hastes, inunda as lentes e mergulha no colo a partir da ponta do nariz. A roupa do homem na cadeira de roda fica ensopada antes de ele conseguir localizar um determinado ponto ao pé do muro verde-escuro. Nele, o grande galho de uma árvore plantada no terreno da casa invisível diminui o ímpeto da chuva numa área irregular de cerca de um metro quadrado. O homem estaciona sua cadeira de rodas nesse metro quadrado. Ali chove menos intensamente. Quase todo o céu em volta está de um cinza escuro, quase preto, uniforme, sem nuances. Na direção da enseada, há uma réstia azul clara. O homem na cadeira de rodas pensa em escárnio. A chuva logo forma duas cascatas de água junto aos dois meios-fios da rua em declive ladeada por altos muros verde-escuros que se emendam indistintamente. Galhos e folhas passam em velocidade crescente aos pés do homem, arrastados morro abaixo. A água adquire a cor da terra. O volume aumenta e produz o ruído de uma pequena cachoeira. Esse ruído então é abafado por um trovão. Depois outro. O homem na cadeira de rodas afinal tira os óculos e olha para cima. Examina o muro verde-escuro, em busca de fissuras. Avalia a solidez do galho sob o qual se abriga. Estima a altura da árvore da qual se projeta o galho em relação à altura das árvores próximas. O homem na cadeira de rodas capta uma explosão de luz com o canto do olho direito. Passam-se quatro segundos. Troveja uma terceira vez. Ele abaixa a cabeça. Vê que a corrente sangrou dos meios-fios e tomou também o meio da rua em declive. A lama líquida não permite mais enxergar os paralelepípedos do calçamento. A água ainda não está alta o bastante para invadir a calçada estreita colada ao muro verde-escuro e molhar os pés do homem na cadeira de rodas. A ducha que cai do céu não o atinge de modo direto. O homem na cadeira de rodas acredita estar tão seguro quanto poderia estar. A chuva rateia antes de redobrar de intensidade, como um automóvel a trocar a marcha mais lenta pela marcha mais rápida.

Anoitece.

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BLOCAGE

La rue en pente est cernée dans toute sa longueur par des murs élevés. Les murs, vert sombre, semblent se confondre l’un l’autre comme s’ils étaient totalement identiques, paraissant n’abriter que d’immenses corps de maisons invisibles de part et d’autre. Cette impression se dissipe dès lors qu’on remarque, par intervalles de quelques dizaines de mètres, des portes découpées dans ce qui semblait n’être que des parois d’un seul tenant. De petites portes, pour les piétons. Portes plus grandes pour les voitures. Certaines sont en bois massif. Les autres, en aluminium brossé. Aucune n’est ouverte. De l’autre côté des murs vert sombre, aucun bruit n’est perceptible. Dans la rue en pente, en fonction de la saison, du jour ou de l’heure, on entend parfois le son creux d’un ventre contre une surface aquatique, ou un grondement sourd et rythmé qui fait trembler les pavés en forme de parallélépipèdes. Pour le moment, tout est silencieux derrière les murs d’un vert sombre quelque peu monotone. Ces murs sont d’autant plus verts et d’autant plus sombres que des plantes grimpantes leur donnent l’assaut de toute part, dans un désordre de feuilles, de branches et très exceptionnellement, de petites fleurs inodores. À certains endroits, profondément enracinés aussi bien à l’extérieur qu’à l’intérieur de leur territoire indépassable, les arbres projettent l’ombre de leurs branches au-dessus de l’étroite portion de trottoir cimenté qui serpente le long des murs. Les ombres des arbres forment des zones plus claires à l’intérieur de l’ombre principale, plus profonde, qui grandit progressivement depuis le morne, au fur et à mesure de la course du soleil du côté opposé. Son absence a créé une troisième ombre, plus vaste encore, plus obscure et plus pérenne. Le morne ressemble à une canine abîmée par l’usure. Il est coiffé par une grande statue blanche aux bras grands ouverts. Les rues en pente pavées de parallélépipèdes semblent émaner de la roche même du morne. Au fur et à mesure de leur descente, cernées sans discontinuer de gauche et de droite par des murs élevés couleur vert sombre, les petites rues s’éloignent les unes des autres, comme les tributaires d’un fleuve de pierre qui ne progresse jamais en largeur, jusqu’à atteindre l’asphalte. La dernière ruelle serpente en direction du bruissement sourd de la circulation que l’on devine plus qu’on l’entend, là en bas, à un endroit que les murs élevés ne permettent pas de voir. Ce qui se fait entendre, ici, ce sont simplement des insectes et des oiseaux, camouflés dans les mousses et les branchages. Un peu plus loin dans la rue en pente avec ses murs vert sombre sans fin, il y a un virage à angle droit. Sitôt  après l’avoir franchi, on est confronté à l’arrière d’une automobile gris métal. Comme la ruelle en pente pavée de parallélépipèdes est décidément étroite, le véhicule a fait monter deux roues sur le trottoir de droite, pour laisser passer d’autres engins. Sur le trottoir, il reste un espace permettant à une personne mince de se faufiler de côté, en prenant garde toutefois de ne pas se heurter à l’épais rétroviseur.

L’épais rétroviseur montre un homme en fauteuil roulant.

L’homme en fauteuil roulant est arrêté. Il observe le rétroviseur, se dit qu’il joue de malchance. Lorsqu’après vingt-sept minutes d’attente au téléphone, la coopérative de taxis équipée pour le transport des personnes handicapées a prévenu que toutes les voitures étaient occupées – sans espoir de rapide amélioration -, il a décidé de descendre la pente tout seul. Les compagnies de taxis régulières n’offraient guère de perspective plus souriante. Aucune voiture libre n’était prévue avant une demi-heure, au minimum. S’il patientait, l’homme perdrait sa consultation au cabinet médical, prévue depuis sept mois. En d’autres occasions, certains jours où aucune urgence particulière ne l’exigeait, il avait fait ce trajet sans aucune difficulté. Un quart d’heure à peine suffirait pour qu’il parvienne à l’angle de la rue principale, pour ensuite héler le premier taxi de passage. Maintenant, arrêté derrière le véhicule gris métal, l’homme se redresse légèrement, les mains précautionneusement agrippées aux accoudoirs du fauteuil pour ne pas le faire déraper. Il allonge le cou. Devant lui, il scrute l’intérieur du véhicule en stationnement pour voir s’il y a quelqu’un. Derrière, il cherche une porte munie d’un interphone pour appeler le conducteur. Il n’y a personne dans le véhicule et aucune porte accessible à moins de vingt mètres, jusqu’à l’angle de la rue pavée. L’homme sur le fauteuil roulant allonge de nouveau le cou en regardant devant lui. Trois mètres après la voiture, il pense avoir repéré un renfoncement dans le mur moussu. Là pourrait se trouver la porte de la maison. Il regarde les parallélépipèdes de la chaussée. Il évalue ses chances de faire descendre le fauteuil, contourner la voiture, remonter le fauteuil, se redresser, presser l’interphone. Comme le trottoir est haut, ses chances lui paraissent infimes. Les roues du véhicule, deux sur le trottoir et les deux autres sur la chaussée, ont incliné la carrosserie de vingt et un degrés. Pour un homme dépendant de sa masse et de la force de gravité qui le déséquilibre légèrement vers la droite, cette inclinaison aboutira à un plongeon tête la première vers les parallélépipèdes, dès l’instant où les roulettes avant du fauteuil perdront contact avec le trottoir. Il hausse le regard vers l’autre côté de la rue. Au-dessus du mur vert sombre, il n’existe qu’une seule fenêtre à l’étage supérieur de la maison d’en face. La fenêtre est fermée, plongée dans la pénombre, à demi recouverte par les branches des arbres. Aucune lumière allumée derrière les vitres. L’homme en fauteuil roulant enfourne sa main droite dans la poche avant droite de son pantalon. La main fouille l’intérieur de la poche quelques instants. Elle en ressort bredouille. Pour la première fois depuis qu’il est bloqué, l’homme envisage de faire demi-tour, remonter la rue sur trois cents mètres jusqu’à son domicile, emprunter la rampe d’accès, ouvrir la porte de chez lui, rappeler la coopérative de taxis équipée pour le transport des personnes handicapées. Ne serait-ce que pour mieux redescendre, en ayant pris soin d’emporter, cette fois, son téléphone portable, qu’il a l’habitude de mettre dans la poche avant droite de son pantalon. L’homme en fauteuil roulant consulte sa montre-bracelet, fixée à son poignet gauche. Il lui reste un peu moins d’une heure avant l’horaire de la consultation programmée depuis sept mois. S’il remonte la rue, il lui faudra vingt minutes, peut-être davantage, avant d’arriver chez lui. Même en supposant que le délai d’attente de la coopérative de taxis ait diminué, il faudrait compter encore vingt minutes de trajet pour se rendre à la consultation. La montre-bracelet fixée au poignet gauche indique une heure comprise entre les embouteillages de midi et ceux de la fin de journée. Il n’était pas inconcevable de tabler sur vingt minutes de trajet entre son quartier, fiché dans les flancs du morne, et celui du cabinet médical. En admettant que la circulation soit un un peu meilleure qu’à l’ordinaire. L’homme en fauteuil roulant se rappelle que la consultation a lieu dans un endroit excentré, localisé près de la rocade, ce qui complique n’importe quel type de trajet, quelle que soit l’heure. Il se redresse sur son siège, allonge de nouveau le cou en regardant devant et derrière lui. Personne ne s’est matérialisé à l’intérieur du véhicule incliné sur le trottoir, aucune porte ne s’est encore ouverte dans le mur qui court sur deux cents mètres, de son côté. Une hypothèse, idiote, se forme dans son esprit. Si le conducteur ou la conductrice du véhicule se fait attendre au-delà de l’heure du thé, l’homme en fauteuil roulant perdra la consultation et devra de nouveau patienter sept mois avant d’obtenir un nouveau rendez-vous. L’homme ne sait s’il dispose de ce temps. À ce stade de sa réflexion, il perçoit un bruit de moteur qui s’approche de la rue en pente pavée de parallélépipèdes. La manière dont le bruit ricoche sur les parois vert sombre le déconcerte quelques instants. Il ne parvient pas à savoir si cette voiture est en train de monter ou  descendre. L’homme en fauteuil roulant parvient à déterminer qu’un véhicule est en train de remonter la rue quatre secondes à peine avant qu’un 4×4 couleur ambre – un modèle de luxe importé –, ne surgisse en sens inverse du véhicule stationné et incliné à environ 21°. Pour réclamer de l’aide, il lève les bras et crie ” hé ” à trois reprises, aussi fort qu’il peut. Le 4×4 ambre, modèle de luxe importé, a un châssis élevé. Pour être mesure d’apercevoir l’homme sur son fauteuil réclamant de l’aide, encore faudrait-il que le chauffeur, camouflé derrière ses vitres teintées, regarde de côté et vers le bas. Encore faudrait-il qu’il sache que l’homme en fauteuil roulant se trouve dans la rue, en panne d’assistance. Comme ce n’est pas le cas, le 4×4 ambre, version luxe, modèle importé, roule sans réduire sa vitesse dans cette portion de rue. Pantelant, l’homme en fauteuil roulant reste immobile deux ou trois minutes, reprenant son souffle, jusqu’à ce que le moteur s’éteigne un peu plus haut, quelque part à faible distance, après avoir fait entendre des bruits de manœuvre. Brusquement, il fait pivoter ses roues et se dirige dans la même direction. Rentrer chez lui pour téléphoner est son unique chance d’être à l’heure à la consultation, fixée sept mois auparavant. L’homme avale les premiers deux cents mètres avec aisance, jusqu’à parvenir à l’angle de la rue. Aussitôt après avoir tourné, il voit l’avant du 4×4 ambré, modèle de luxe importé, stationné à une quinzaine de mètres. Aucune trace du conducteur. La personne camouflée derrière les vitres teintées a pris les mêmes précautions que celle du véhicule gris métal, arrêté un peu plus bas. Pour ne pas gêner le passage d’autres véhicules, le 4×4 ambré a monté deux roues sur le trottoir. Parce que le châssis est plus haut, l’inclinaison de l’engin par rapport au sol s’est réduite, dix-sept degrés environ. L’espace libre entre la tôle renforcée et le mur vert sombre est suffisant pour qu’une personne mince puisse s’y faufiler, à condition toutefois qu’elle retienne sa respiration au contact de l’épais et solide rétroviseur latéral. De loin, l’homme en fauteuil roulant distingue son propre reflet, du côté convexe et mat du boîtier abritant le rétroviseur. Il calcule qu’il est prisonnier, à l’intérieur d’un périmètre un  peu supérieur à trente-cinq mètres de long, sur un trottoir étroit bordé à main gauche par un mur vert sombre, et à main droite par la rue pavée de parallélépipèdes. L’homme au fauteuil roulant rit. Il pense à ce qui pourrait encore bien lui arriver.

Il commence à pleuvoir.

L’homme en fauteuil roulant a senti la première goutte de pluie cogner contre le verre gauche de ses lunettes. Il n’y a pas eu de deuxième goutte. Ce qui dégringole subitement du ciel est un jet d’eau continu, comme si la statue aux bras ouverts venait d’ouvrir un robinet ou avait commencé à dégouliner de transpiration. L’homme incline sa tête. Il tente de protéger ses lunettes. La pluie imbibe son crâne, perle le long de l’armature de ses lunettes, inonde les verres et, à partir de la pointe du nez, ruisselle dans son cou. Bientôt, les vêtements de l’homme en fauteuil roulant sont trempés, jusqu’à ce qu’il finisse par repérer un endroit précis dans le mur vert sombre. À cet endroit, l’une des branches maîtresses d’un arbre planté sur le terrain de la maison invisible atténue le déluge, sur une surface irrégulière d’à peu près un mètre carré. L’homme y stationne son fauteuil. Il est moins exposé aux éléments. Tout le ciel visible a viré au gris presque noir, uniforme, sans nuances. En direction de la rocade, il subsiste un fragment bleu clair. L’homme en fauteuil roulant est affligé. Bientôt, la pluie forme deux petites cascades d’eau le long de chaque trottoir de la rue en pente, bordée de murs vert sombre qui se prolongent indistinctement. Branches et feuilles arrachées au morne défilent à une vitesse croissante aux pieds de l’homme. L’eau est couleur terre. Le volume augmente et ressemble au vacarme d’une petite chute d’eau. Ce bruit est fracassé par un coup de tonnerre. Suivi d’un autre. L’homme en fauteuil roulant ôte ses lunettes, regarde en l’air. Il examine le mur vert sombre, à la recherche de fissures. Il jauge la solidité de la branche sous laquelle il s’est abrité. Évalue la hauteur de l’arbre à partir duquel la branche s’est déployée, en comparant avec la hauteur d’arbres proches. Du coin de l’œil droit, l’homme au fauteuil roulant enregistre une explosion de lumière. Quatre secondes s’écoulent. L’orage tonne une troisième fois. Il baisse la tête. Il voit que le courant s’est évasé et occupe le milieu de la rue en pente. Le voile de boue liquide dissimule les parallélépipèdes. L’eau n’est pas encore assez haute pour gagner l’étroit trottoir qui tutoie le mur vert sombre, et atteindre les pieds de l’homme en fauteuil roulant. Ce qui tombe du ciel ne l’atteint pas directement. Il se dit qu’il est autant en sécurité qu’il pourrait l’être. La pluie hésite avant de redoubler d’intensité, comme un véhicule qui change de régime pour démultiplier sa vitesse.

À présent, la nuit tombe.

***

O autor: Arthur Dapieve, brasileiro, nasceu no Rio de Janeiro em 1963 e é jornalista, crítico musical, professor da PUC-RIO e editor. Ele também é escritor  autor de vários livros. Black Music [Objetiva, 2008], traduzido para o francês por Philippe Poncet, foi publicado em 2012 na França pela Éditions Asphalte (Paris). 

 O tradutor: Philippe Poncet, francês, nasceu em Bangui (República Centrioafricana). Hoje mora em Natal (RN). Foi coroinha, modelo (para agradar à mãe), guarda noturno, ghost writter, editor de livros escolares na África e tradutor. Ele ama a maior parte dos autores que traduz, especialmente Arthur Dapieve. 

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