A primeira vez que eu viajei ao Brasil foi uma viagem mental

ImageCristian de Nápoli*

 

A primeira vez que eu viajei ao Brasil foi uma viagem mental. Eu era um menino, o elemento que me fez viajar foi um adesivo que o meu irmão mais velho trouxe do trabalho e colou na porta do armário. Junto com o desenho de palmeiras e do mar, o adesivo dizia “Porto Seguro”. Já tenho escrito um poema sobre isso; já existe uma psicanalista lacaniana em Buenos Aires que conhece a historia. Um lugar ligeiramente diferente (o “ue” castelhano de “puerto”, substituído por um “o”) e que não tremia feito um vulcão: um lugar seguro. Minha casa tremia, quieta.

A segunda viagem foi uns dez anos mais tarde. 1995. Nós éramos uma turma; todos estávamos dando as costas para a música punk por culpa da ternura do Caetano Veloso. Fomos viajando em grupos de dois, de carona por Argentina até Foz de Iguaçu, depois, de ônibus até São Paulo. Com Mariana dormimos na Praça da República: hoje meus amigos paulistas não acreditam. Olhamos fascinados o edifício do MASP, depois na Ilha Grande a turma toda se reencontrou. Os preços dos voos internacionais eram, nessa época, muito exclusivos; voltamos em longos e cansativos ônibus a Buenos Aires.

Hoje vou fazer minha viagem numero 19 ao Brasil. A estada mais longa foi em São Paulo no 2006. Lá passei três meses trabalhando na Bienal de Arte. A mais curta, três dias em Belo Horizonte, em 2010. O Rio eu conheci no verão do ano 2000, junto à mãe dos meus filhos, uma finlandesa que tinha viajado para a Argentina para estudar a língua guarani. Nesse verão do 2000, em cima da barca que une Angra dos Reis com Ilha Grande, ela me disse, depois de voltar do banheiro: “Vamos ter um filho”. Hoje temos dois. Poderia também falar das viagens ao Brasil que minha mãe costumava fazer no começo dos anos 90. Ela ia comprar roupa que depois vendia no nosso bairro. Mamãe me falava de um transformista brasileiro que fazia shows noturnos num café-concert: ela comparecia todas as noites para ouvi-lo e ficar extasiada diante desse homem perfeitamente virado mulher. Estava apaixonada com ele, era evidente.

Mas vou falar de outra coisa, para fechar este negócio. Vou falar de alguns livros que eu comprei nessas viagens. Um da Clarice Lispector, no ano 95: “Para não esquecer”. Outro do Oswald de Andrade, “Sob as ordens de mamãe” – que comprei no Rio, faz uns seis anos. “O meu destino é pecar”, do Nelson Rodrigues, em julho de 2012, num sebo no Largo de Machado. Esses e muitos outros, dos mais variados escritores, de Antonio Vieira a Marcelino Freire. Mas Clarice, Oswald e Nelson… Eu até seria capaz de ministrar em Buenos Aires um curso de literatura brasileira sem necessidade de falar de mais ninguém, só deles três. Também me lembro, especialmente, do primeiro livro do Nelson que eu ganhei: em São Paulo, no 2006. Foi um presente do dono do boteco onde eu passava as noites, a Mercearia São Pedro, lá na Vila Isabel. O Marquinhos é o dono, todo mundo gosta dele. O presente era um exemplar de “A vida como ela é”, o livro que hoje estou traduzindo.

*Cristian de Nápoli é um tradutor argentino que participa do programa de residência de tradutores estrangeiros no Brasil com a tradução de 50 crônicas de “A Vida Como Ela É”.

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