Quando estive no Brasil

*Claire Varin

ImageQuando estive no Brasil nos anos oitenta para pesquisas de doutorado sobre a obra de Clarice Lispector, não senti pelo fato de a escritora ter falecido anos antes. Com fatalidade, aceitei o fato e comecei minha jornada, lendo seus textos no original, recolhendo material, entrevistando amigos escritores, etc. Consolava-me pensando que a personalidade Clarice teria sido como um véu espesso entre a obra a estudar e a doutoranda que eu era. Assim me detinha no mais importante: a obra. Sem me deixar distrair com a pessoa.

Foi depois, de volta ao Quebec, quando eu ia traduzindo trechos de seus livros ou suas entrevistas dadas à imprensa nacional para as necessidades da minha tese que me dei conta: no fim das contas, a escritora me teria sido “útil”, não somente para receber dela certas luzes sobre sua visão do mundo mas, mais pragmaticamente, sobre seu emprego de termos, expressões idiomáticas, estruturas de frase, sobre equivalências possíveis, contextos a considerar, etc. Talvez ela não teria tido infinita paciência comigo, mas, sabendo das suas próprias atividades de tradução do inglês, eu poderia ter aproveitado de uma forma ou de outra sua presença intensa e tão inteligente.

Desta vez me foi pedido por uma colega escritora, a professora Danielle Forget, traduzir com ela o livro de um autor vivo, da Bahia, o Aleilton Fonseca, para uma editora quebequense, Marcel Broquet éditeur. Graças à Fundação Biblioteca Nacional, terei a oportunidade de ter vários encontros com o autor, trabalhar com ele concretamente a fim de achar equivalências em francês à suas expressões e figuras, em termos de referências culturais, por exemplo, essa “sereia serelepe e célere nas águas”, que este coloca na fala da sua personagem…

…Serelepe é um esquilo, certo, e, de forma figurativa, uma pessoa. Mas, para nós aqui, francófonos do Canadá, esquilo não significa, figurativamente falando, vivo e esperto ou então gracioso e provocante (aliás preciso do autor para me ajudar a escolher se a sereia dele é mais esperta ou mais provocante…) Como traduzir conservando o sentido e a figura do animal, sem falar na tentativa de ser fiel a essas aliterações, essas sonoridades em “s” da sereia serelepe e célere nas águas…? Eis que mergulhei em problemas que são meus de tradutora. No entanto, são problemas que o autor pode me ajudar a resolver durante nossas conversas de março que vem (março, mês que gera outras águas, as cantadas por todo o Brasil…). E são muitos assim os probleminhas encontrados ao longo das “histórias de humor” do livro “A mulher dos sonhos”, de Aleilton Fonseca.

Minhas expectativas: trabalhar com o autor em Salvador, sim, durante a primeira parte da estadia de cinco semanas e percorrer com ele os textos de sua coletânea parando em frente às pedrinhas que a tradutora tem que tirar do caminho… Depois rumo à Paraíba por duas semanas para dirigir um ateliê sobre tradução na Universidade Federal de Campina Grande, uma das instituições parceiras da FBN. Última etapa da residência: a derradeira semana no Rio de Janeiro, ponto de embarque para o Quebec, a fim de encontrar representantes do meio literário e o pessoal da Fundação Biblioteca Nacional. Para agradecer e me despedir, antes de continuar a andar na ponte entre o Brasil e o Québec…

*Claire Varin é escritora e tradutora e participa do Programa de Residência de Tradutores Estrangeiros no Brasil com a obra “A Mulher dos Sonhos”, do baiano Aleilton Fonseca.

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Uma resposta para Quando estive no Brasil

  1. denise bottmann disse:

    ui! sereia serelepe e célere vai ser dureza! bienvenue et bonne chance!

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