Preparar bem a sua primeira viagem ao Brasil

Dominique Nédellec*

Dominique NédellecSempre gostei dos sebos. Até houve um tempo em Paris em que comprava livros antigos de segunda à sexta para depois vendê-los ao fim-de-semana no mercado especializado sediado no parque Georges Brassens, um lugar famoso da capital francesa para todos os bibliófilos. Este ofício, tinha aprendido a fazê-lo e a gostar dele graças aos conselhos recebidos durante meses de trabalho ao lado do dono duma pequena livraria-editora invulgar, chamada Le Dilettante.

Por coincidência, num livro do Rodrigo Lacerda que traduzi, O Fazedor de velhos, a personagem principal, o jovem Pedro, passa imenso tempo nos sebos: gosta mais de comprar livros do que de estudar. É numa loja destas que encontra um antigo professor que se vai revelar decisivo para o novo rumo que a vida dele vai tomar.

No passado mês de outubro, entreguei a tradução de Passageiro do fim do dia, do Rubens Figueiredo, que vai sair na França no início de 2013. E qual é a profissão do herói? Alfarrabista!

Na cidadezinha onde vivo agora, Figeac, num lugar remoto da França, encontrei numa loja de velharias, um livreco antigo, sem data de publicação, mas cujo conteúdo permite deduzir que tem mais ou menos cem anos (havia 23 milhões de habitantes em todo o Brasil e 340 000 em São Paulo). Chama-se: Au Brésil. La Colonisation [No Brasil. A Colonização]. Subtítulo: Renseignements pratiques à l’usage des émigrants, artisans, voyageurs, etc [Informações práticas para o uso de emigrantes, artesãos, viajantes, etc]. Foi escrito por um tal Paul Walle, conselheiro para o comércio exterior da França. Leva na capa um carimbo encarnado: Bureau de renseignements du Brésil à Paris – 59, rue de Grenelle. E pechincha suplementar: entre as páginas do livro, vinha um bonito mapa da época indicando os destinos servidos pela Compagnie des messageries maritimes. Desde Bordeaux, há traços que permitem seguir o percurso até vários pontos do território brasileiro, assim escritos: Pernambouc, Bahia, Rio-de-Janeiro, Santos.

Comprei este livro há uns três ou quatro anos. Ainda não sabia que ia participar do Programa de apoio à tradução da FBN, mas palpita-me que fiz bem em investir uns euros neste guia. Eu, que ainda não conheço nada do Brasil, pude encontrar lá informações preciosas, agora que a data de partida está a aproximar-se.

No capítulo “Características, usos e modos”, leio o seguinte trecho com o maior agrado: “O brasileiro possui belas qualidades naturais. Se analisarmos sua inteligência, ele não perde para ninguém e aprende facilmente toda nova produção científica e intelectual que a educação joga como alimento para os sedentos de saber. A base do seu caráter é a gentileza, ele tem horror da violência [nesse particular, suspirei de alívio] ; ele é simples, cortês e educado nas relações, mas pode-se notar uma leve melancolia nele, um caráter gentil e triste, mais reservado, caráter provocado sobretudo pelo clima, pela raça e pelos costumes sociais. Ele não parece ter preconceitos sociais nem religiosos. Na verdade, um traço que chama atenção no brasileiro é seu caráter profundamente democrata”. Cáspita, tudo isto é muito animador! Esta bolsa é mesmo uma sorte. A seguir, o autor também põe em relevo a hospitalidade do brasileiro, bem como a louvável moderação no consumo de bebidas alcoólicas. Mas não podia escapar a alguns defeitos, o contrário teria feito dele um ser excepcional, diz-nos o senhor Walle. Observam-se no Brasil duas paixões dominantes: o jogo e a política. “A política, que prejudica tudo, estraga tudo e atrofia todas as ideias importantes tomou um lugar grande demais nas preocupações e ocupações de todos”. De fato, é de se lamentar. Mas, como vou prevenido, tentarei evitar assuntos partidários demasiado sensíveis com as pessoas com quem conversarei.

E a nível da roupa, o que é que tenho de levar na minha mala? Felizmente, o livro também fornece indicações sobre o tema: “Os brasileiros da melhor sociedade, por exemplo, aquelas da classe média e, em geral, todos que podem, adoram se vestir bem. Eles também costumam usar sempre roupas de corte impecável. (…) O brasileiro usa roupa branca sempre impecável, apesar do preço alto da lavagem, botas tão reluzentes que parecem envernizadas, porque manda encerá-las duas ou três vezes por dia”. Está bem, pelo visto, é melhor levar peitilhos e colarinhos, e deixar as minhas havaianas na França.

Mais alguma coisa que deva saber? O autor termina o livro com alguns “conselhos aos iniciantes e recém-chegados”, insistindo na idéia de que “os sonhadores, desclassificados e desviados” devem ficar em casa, este não é um país para eles. “No Brasil, não há um lugar para inativos e inúteis, mas para trabalhadores dedicados e perseverantes, que têm a vontade firme de vencer na vida”.

Sim senhor, sou muito trabalhador. Pelo que não duvido que esta viagem será definitivamente proveitosa. Já estou com pressa de embarcar.

*Dominique Nédellec é francês e participa do programa de residência de tradutores estrangeiros no Brasil com a obra “Diário da Queda”, de Michel Laub.

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