A primeira vez que visitei o Brasil

Por Pere Comellas*

 

O tradutor Pere Cornellas

A primeira vez que visitei o Brasil ― com uma bolsa de intercâmbio de estudantes ― fui a Porto Velho, Rondônia. A maior parte dos brasileiros nunca estiveram lá, claro. De fato, é um destino esquisito se você procurar o Brasil prototípico (o que com frequência quer dizer o Brasil dos estereótipos). No entanto, lá estava uma comunidade humana de toda origem, no que em certo sentido poderia se considerar uma bela síntese dos brasileiros, que é tanto como dizer uma síntese da humanidade. Lá estava também uma velha locomotora e os restos de uma linha ferroviária no meio da floresta. Márcio Souza e sua Mad Maria deitando fumo e brasas do tamanho de ovos de galinha. Depois descemos o rio Madeira e parecíamos ter entrado num romance de Milton Hatoum, mostrando como periferias geográficas não têm nada a ver com periferias literárias.

Depois tive ocasião de conhecer algumas outras cidades brasileiras. A Bahia, com a sua enorme carga literária também (do Pelourinho à ilha de Itaparica; de Gregório de Matos a Jorge Amado); Porto Alegre (cidade dos Veríssimos, de Scliar, de tantos outros que ainda não li nem sei que existam)… , mas nunca visitei o Rio de Janeiro.

Ninguém pode encarar o Rio com inocência, porque ele faz parte não só do imaginário brasileiro, como também do patrimônio imaginário da humanidade. Como todas as cidades míticas, talvez visitá-la seja um erro: nenhuma realidade pode se confrontar com sucesso  a imaginação e o mito. Sempre existe o risco da decepção, sintetizada perfeitamente naquela exclamação do turista canônico na frente de Notre Dame ou da Pedrera de Gaudí: “pensei que fosse bem maior!”

Será que ainda é possível reconhecer no Rio de hoje a cidade que acolheu e destruiu o Rubião? Existirá a rua onde Brás Cubas visitava Marcela? Mandrake anda ainda de madrugada pelo calçadão? Será que o palácio do Catete abriga o fantasma do Getúlio, pelo menos do Getúlio do Agosto de Rubem Fonseca? E o que agora é para mim mais importante: será possível perceber alguma coisa da alma desse Rio de Rodrigo Cambará, o Rio getulista dos anos trinta que devo traduzir para o espanhol?

Pelo menos sei que lá está não só uma das melhores bibliotecas nacionais do mundo. E também os cenários de sucessivas invenções artísticas de toda índole, da musical à arquitetônica, da literária à plástica, cada uma das quais daria para toda uma tradição cultural. Será que uma primeira viagem chega para aprender a arte de andar pelas ruas do Rio de Janeiro?

* Professor Titular da área de português da Universidade de Barcelona, o tradutor Pere Comellas virá ao Brasil para trabalhar sua tradução do romance “O Arquipélago”, de Érico Veríssimo – 3ª parte da trilogia “O Tempo e o Vento” – durante o Programa de Residência de Tradutores Estrangeiros da FBN. Formado pela mesma universidade em que hoje trabalha, Pere já traduziu o segundo volume da série, “O Retrato”, e dessa vez divide a tarefa com uma colega, Teresa Matarranz López, que também participa do Programa de Residência de Tradutores no Brasil.

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