Confira discurso do autor Milton Hatoum durante cerimônia de encerramento de Frankfurt 2012

Milton Hatoum discursa em solenidade de passagem de bastão, no encerramento da Feira do Livro de Frankfurt 2012

Gostaria de ressaltar brevemente a importância da homenagem ao Brasil na Feira do Livro de Frankfurt, em 2013. Antes de tudo, a literatura de um país é capaz de desconstruir velhos e novos estereótipos sobre esse mesmo país.

O Brasil já foi considerado o país do carnaval, do samba, do futebol. Talvez ainda seja visto ou imaginado como uma mistura dessas três artes populares com uma dose espetacular de violência urbana e rural. Usei a palavra “espetacular” porque a violência, dependendo de como é usada ou reconstruída numa obra de arte, pode revelar-se um mero espetáculo.

Já fomos o país do futuro, mas parece que o futuro deu um salto no tempo, ou deu um salto para trás e nos alcançou. Penso que a literatura brasileira nega ou questiona essas generalizações fáceis. Mas, para que essa literatura seja conhecida, ela precisa ser bem traduzida e editada.

Nas décadas de 1960 e 1970, o boom da literatura latino-americana excluiu a obra de pelo menos três grandes escritores do Brasil: Clarice Lispector, Graciliano Ramos e João Guimarães Rosa.  Um grande contista como Dalton Trevisan também foi excluído desse boom, que não foi latino-americano, e sim hispano-americano. No próximo ano, a Feira do Livro de Frankfurt pode corrigir essa imprecisão geográfica ou essa injustiça literária. Por isso, o intercâmbio literário – verdadeiramente literário, e não apenas comercial – pode ser ampliado e aprofundado. Penso ser este um dos objetivos da Feira do Livro de Frankfurt ao homenagear anualmente um país.

Numa obra de ficção, o narrador inventa um microcosmo, um mundo paralelo que pode expressar as contradições, anomalias, iniquidades, loucuras e até mesmo o impasse de uma sociedade. Mas pode também expressar questões e conflitos íntimos, em que a feição nacional, brasileira, não sendo ostensiva, é apenas insinuada. Penso que as vozes desses narradores – alguns deles aqui em Frankfurt – tentam sondar a complexidade de um país, cuja face mais violenta e perturbadora pode ser traduzida por um drama individual ou familiar. Enfim, um Brasil de múltiplas faces, inventado por vozes dissonantes, sem estereótipos e sem mitificação. Vozes de dúvidas, de perguntas sem respostas. Ou vozes que reinventam um país a um passo do futuro, mas esse futuro pode ser o abismo, e o abismo, uma metáfora do destino de narradores e personagens.

Esse pessimismo radical é um dos traços fortes da obra de Machado de Assis. Não menos triste e pessimista é o desfecho do grande romance “Macunaíma, o herói sem nenhum caráter”, de Mário de Andrade.

São essas vozes narrativas – do passado e do presente – que imprimem forma e espessura à literatura brasileira.

 

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