Bom humor marca encontro de escritores brasileiros em Guadalajara

Marçal Aquino, Cíntia Moscovich, Paula Parisot e Luiz Ruffato abrem a programação Estação Brasil no evento mexicano

PublishNews – 27/11/2012 – Carlo Carrenho

“Ler um país é conhecê-lo. Essa é a proposta que a Feira Internacional do Livro de Guadalajara faz este ano para receber 18 narradores brasileiros, reunidos em um mosaico que busca dar a conhecer a diversidade e o vigor das letras brasileiras da atualidade.” É assim que o evento mexicano, que acontece de 24/11 a 2/12, justifica o programa Estação Brasil, em um belo catálogo com textos e biografias de autores. Considerando que o país homenageado é o Chile, a presença oficial de tantos escritores brasileiros dentro de uma programação especial é uma novidade no evento tapatío (tapatío = natural do estado mexicano de Jalisco).

O ponta-pé inicial foi dado ontem, 26/11, com uma mesa de escritores que reuniu o paulista Marçal Aquino, a gaúcha Cíntia Moscovich, o mineiro Luiz Ruffato e a carioca Paula Parisot. A mediação coube ao jornalista espanhol Marcel Ventura. “Quando vou ao Brasil, meus amigos falam castelhano comigo, então vou retribuir o gesto e apresentar a mesa em português”, explicou Ventura ao abrir o evento e antes de ler a biografia de cada brasileiro na língua de Machado de Assis. Já em espanhol, o mediador explicou a diversidade geográfica da mesa e perguntou aos escritores se morariam em outras cidades. “Poderia morar em qualquer lugar do mundo, mas escolho Porto Alegre porque foi a cidade que deu abrigo, trabalho e vida para minha gente”, respondeu Cíntia, resgatando sua origem judaica. Marçal então declarou seu amor pela capital paulista. “Não troco São Paulo porque gosto de caos; apesar dos problemas, ali é minha casa”, explicou. Paula Parisot, que também vive em São Paulo, disse que moraria em qualquer lugar. “A casa do escritor é sua língua e isto faz com que possamos viver em qualquer lugar”, explicou. Mas foi Ruffato que provocou o primeiro momento de bom humor do painel quando respondeu que poderia morar em qualquer lugar. “Isto é mentira. Já me disse diferente”, interrompeu o mediador jocosamente. “O mediador não pode fazer isso”, replicou o escritor entre as risadas do público de cerca de 150 pessoas presentes.

O pequeno imbróglio e as sempre divertidas participações de Cíntia definiram o tom bem-humorado da mesa. Ventura então perguntou sobre a relação dos escritores com os clássicos brasileiros. Marçal foi categórico: “Nenhum escritor escreve sozinho. Eu não escreveria se não tivesse lido Graciliano Ramos”. E completou: “Graciliano é o santo que tem altar na minha casa.” Cíntia então declarou sua admiração por Clarice Lispector. “Eu não posso ter altar em casa, mas se tivesse seria dela”, brincou. Já Ruffato reconheceu sua antropofagia. “Li de tudo e comi de tudo”, afirmou. “E quem me mostrou os caminhos foi Machado de Assis”, completou o escritor. Paula Parisot aproveitou a pergunta para falar sobre o prazer da leitura. Ela contou que só começou a gostar de ler quando já era adolescente e foi morar na casa da avó, onde dormia na biblioteca. “Minha avó me deu Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca, e descobri o prazer da leitura”, lembrou. “A gente é o que a gente lê quando a gente lê com prazer”, afirmou a escritora carioca a certa altura.

O mediador Marcel Ventura levou então a conversa para o lado econômico da vida do escritor, questionando a possibilidade de se viver de literatura. “Logo cedo, percebi que o melhor era não viver de literatura e escrever por paixão e prazer”, disparou Marçal. “Os leitores brasileiros formam uma espécie de seita; muita igreja tem menos membros que a literatura brasileira”, brincou o escritor paulista. Ruffato então manteve o clima descontraído. “Virei escritor profissional por ignorância e continuo ignorante, achando que dá para viver de literatura”, explicou. “Não quero escrever como Paulo Coelho, mas quero vender como ele”, brincou o autor mineiro.

A discussão seguiria por mais uma hora abrangendo os mais diversos assuntos, do amor à violência, do sexo à obesidade, de tradutores a performances artísticas, mas sempre amparada naquele bom humor bem brasileiro que o espanhol Marcel Durante soube provocar tão bem.

[Os demais escritores do programa Destinação Brasil são: João Carrascoza, Bernardo Carvalho, João Paulo Cuenca, Ferréz, Daniel Galera, Milton Hatoum, Rodrigo Lacerda, Michel Laub, Adriana Lisboa, Margarida Patriota, Luiz Ruffato, Carola Saavedra, Tatiana Salem levy, Edney Silvestre e CristovãoTezza]

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