EntreNósOtros – Mesa Traduções, Culturas e Ficções

No penúltimo dia de oficina, 15 de novembro, os participantes da EntreNósOtros – Sujeitos culturais e Miragens Literárias da tradução Espanhol-Português-Espanhol participaram de uma mesa redonda interna. A Mesa “Traduções, Culturas e Ficções” teve a participação de Johannes Krestchmer e de Viviana Gelado, ambos professores da Universidade Federal Fluminense (UFF), e tinha como propósito introduzir tópicos teóricos e específicos, como a relação entre tradução e cultura, para auxiliar o grupo e enriquecer o intercâmbio na apresentação da tradução para o português de “Changó, el gran putas”, de Manuel Zapata Olivella, pelo brasileiro Francisco Manhães. A obra é um grande épico que cobre 500 anos de história, contada num estilo que Zapata chamou de “realismo mítico”. Ela fala e usa uma visão de mundo da religião iorubá, incorpora provérbios, trava-línguas, contos de fadas e canções da tradição africana, além de contar feitos dos heróis negros nas revoluções americanas. “Zapata foi um dos primeiros a usar o ritmo e a musicalidade em sua escrita, além de incorporar a linguagem corrente na obra”, afirma Francisco.

Johannes abriu a mesa  falando sobre a visão da sociedade sobre a tradução. A partir de personagens tradutores em obras literárias, ele fez um panorama sobre as mudanças da imagem dos tradutores dentro da cultura à qual pertenciam – dos traidores fracassados do século XVIII ao sujeito tradutor, que ainda é subalterno, mas que tem poder sobre a literatura. “Essas histórias nos ajudam a pensar as múltiplas funções históricas dos profissionais tradutores, e assim a compreender a arqueologia da profissão”, afirmou Johannes, antes de completar: “Talvez o tradutor hoje devesse ter um papel de protagonista num romance, dada sua importância para a literatura”.

Viviana continuou, falando especificamente sobre o surgimento da poesia negrista moderna na América Latina, uma vertente da poesia de vanguarda da qual Zapata fazia parte, e sobre algumas questões que surgem na tradução desse tipo de poesia, muito calcado na oralidade. “A poesia negrista tem muitas características diferentes e, na verdade, é o assunto sobre o qual ela fala que define se determinado poema é negrista ou não. Mas uma corrente forte dessa poesia acreditava que ela só se completava quando era declamava, só ganhava corpo quando ouvida. Como traduzir isso?”. Outra questão importante salientada por Viviana foi a grande quantidade de referências culturais presente nesse estilo de poesia: “O interessante é que as antologias publicadas na América Latina, em espanhol, língua original dos poemas, vinham cheias de notas de rodapé. Já as antologias publicadas nos EUA não tinham explicação nenhuma. Por que alguns consideravam necessária a inclusão de explicações e outros, não? O que os tradutores desse tipo de obra devem fazer hoje?”

Essas mesmas questões foram mencionadas quando Francisco apresentou a tradução de um trecho do livro para que os colegas dessem suas sugestões. “Zapata Oliveira fez milhares de fichas com informações antes de começar a escrever. Mas qual é a relevância das informações apresentadas? Será que todas elas merecem notas de rodapé realmente? Acho que muitas vezes o leitor se interessa por ler esse tipo de livro porque o texto é bonito, não necessariamente para entender tudo que é dito. O que vale é a musicalidade do texto”, afirmou Francisco, salientando a importância da manutenção do ritmo da poesia na tradução. E ainda completou: “O próprio autor fala sobre isso no prefácio. Como podemos desrespeitar?”

 

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