Professor alemão trabalha em nova tradução de “Grande Sertão: Veredas”

Capa do Livro ” O Grande Sertão: Veredas”

Em uma entrevista dada ao jornal brasileiro “Correio da Manhã”, em 1968, Curt Meyer-Clason, o primeiro tradutor de “Grande Sertão: Veredas”, declarou: “Na primeira vez que li ‘Grande Sertão’, eu pensei: ou essa linguagem não existe ou eu nunca fui para o Brasil”.

Ele estava certo em duvidar. Considerado por muitos o maior escritor brasileiro, Guimarães Rosa, autor de “Grande Sertão: Veredas”, ficou famoso pelas inovações de linguagem que usou em seus livros. Seu estilo era tão diferente que alguns críticos veem o livro como um equivalente ao “Ulisses” de Joyce e o Clube do Livro da Noruega, um grupo constituído por 100 escritores de 54 países, o considerou um dos 100 melhores livros de todos os tempos.

Apesar de tudo isso – ou talvez por causa disso tudo -, outro tradutor está assumindo o desafio de transformar a linguagem de Rosa em alemão: Berthold Zilly, tradutor e professor aposentado da Universidade Livre de Berlim de 66 anos de idade: “A ideia não foi minha, mas de Michael Krüger, um escritor, crítico literário e dono de uma importante editora, a Hanser, de Munique. Ele vem publicando toda uma série de novas traduções de obras clássicas da literatura universal, como ‘A Ilíada’, ‘Dom Quixote”, “Madame Bovary”, “Moby Dick e “Guerra e Paz”.

E como ele é um admirador de “Grande Sertão: Veredas”, quer que esta obra-prima entre nesse programa”, diz Zilly. Ele também explica que a tradução de Curt Meyer-Clason não está mais disponível: “A tradução antiga está esgotada há décadas e não aparece mais em resenhas de jornais ou rádio. Mas claro que me lembro da repercussão do livro uns quarenta, quase cinquenta anos atrás. Na época, li muitas resenhas e assisti a leituras e palestras do tradutor. Meyer-Clason, que era homem famoso, aclamado, amigo de Guimarães Rosa”.

Mesmo elogiando a erudição de Meyer-Clason, Zilly não é nenhum novato. Ele já trabalhou com alguns dos mais emblemáticos clássicos literários brasileiros. Livros como “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, “Lavoura Arcaica”, de Raduan Nassar, e “Memorial de Aires”, de Machado de Assis, conhecidos pelo estilo ou pela linguagem específica, foram todos traduzidos para o alemão por ele. “O que distingue Guimarães Rosa, e especificamente ‘Grande Sertão: Veredas’, é sua enorme distância em relação ao português padrão e a todos os estilos e procedimentos compositórios de outros autores, o que se poderia chamar de qualidade diferencial do seu estilo. Claro que quase todo autor procura ser singular, inconfundível, único, mas em Guimarães Rosa a distância entre a linguagem do autor e a linguagem de outros autores, da mesma época, da mesma temática, da mesma região, é muito maior. O bruxo de Cordisburgo parece que levou a rejeição da palavra corriqueira, do lugar comum, do provérbio gasto até aos extremos, trabalhando, modelando, ciselando a linguagem até que fosse só dele”.

Zilly se mudou para Florianópolis, onde é professor visitante na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Ele pretende trabalhar na tradução durante os próximos três anos e fazer algumas coisas de maneira diferente de Meyer-Clason: “Na primeira tradução da obra rosiana para o alemão, as inovações e ousadias do original ficaram em grande parte aplainadas em favor de uma fácil compreensibilidade do léxico e da sintaxe. Eu gostaria de dar ao leitor alemão uma impressão justamente daquilo que chamo de qualidade diferencial do estilo rosiano: a sua enorme distância da língua-padrão e do estilo de outros escritores. A primeira tradução alemã está cheia de locuções e provérbios corriqueiros, justamente aquilo que Guimarães Rosa não desejava. Além disso, o tradutor inúmeras vezes não resistiu à tentação de explicar e de comentar o original, diminuindo, por exemplo, o laconismo de muitas frases.”.

Mas ele insiste que a crítica não torna a primeira tradução ruim. Pelo contrário: “A tradução de Meyer-Clason tem altos méritos, por reproduzir fielmente a trama, a paisagem, os traços dos personagens e por tornar a obra de Guimarães Rosa conhecida nos países de língua alemã. Além disso, ele criou uma linguagem bonita, sonora, plástica, imagética, que se impõe à imaginação e à memória. Naturalmente eu li essa tradução e continuo lendo-a, como estou lendo também traduções para outras línguas: para o inglês, o italiano, o espanhol, o holandês. Pois traduções são e contêm pesquisas, análises e interpretações, de pessoas que penetraram profundamente no texto, no seu universo ficcional e suas relações com o mundo real, pelo que essas leituras sempre podem ser úteis e sugestivas, mesmo que eu siga outra linha interpretativa e outra estratégia tradutora.”.

Além de mostrar um lado diferente do estilo de linguagem de Rosa, Zilly acredita que a nova tradução também vai permitir que os leitores alemães tenha uma interpretação diferente da que o livro teve no início dos anos 60: “Havia, como sempre há no caso de leituras de livros estrangeiros, de culturas remotas no tempo ou no espaço, o interesse pelo exótico, pelo que os europeus imaginavam como tropical, como sul-americano. Além disso, os anos sessenta, na América Latina, eram anos de regimes ditatoriais e de guerrilha, de modo que havia leituras políticas, em que Medeiro Vaz, Zé Bebelo e Riobaldo apareciam como chefes guerrilheiros quase como Camilo Torres ou Che Guevara. Suponho que os leitores da futura tradução darão prioridade a um interpretação mais antropológica e política, vendo no sertão uma região que tem aspectos de um Estado falido, sem instituições capazes de satisfazer as necessidades básicas da região, em termos de segurança, moradia, alimentação, justiça, educação, saúde, pois é dominada pela violência dos mais fortes ou mais astutos.

A questão das origens, causas, condições, soluções do problema do mal, da violência, da guerra, da criminalidade e a questão da superação dessas infelicidades, a construção de uma biografia e de uma sociedade pacífica, realizada, talvez até feliz – tudo isso são temas sempre atuais e universais”. Mas ele não duvida nem um pouco do sucesso que o livro fará: “Basta dar uma olhada nos sebos virtuais. A primeira tradução é bastante procurada e cara, custando entre 40 e 100 euro – bem mais do que quando saiu uns quarenta anos atrás”.

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