Conexões latinas: lançamentos de Clarice Lispector e Silviano Santiago na Argentina, e de Tezza e Luiz Ruffato no México

Presença da cultura e dos autores brasileiros deve aumentar na Argentina até 2014, com a homenagem à cidade de São Paulo na Feira do Livro de Buenos Aires 

capaSilviano“Não surpreende que seja precisamente Silviano Santiago o primeiro intelectual latino-americano que se dispôs a comparar e a contrastar – a pensar em conjunto – um ensaio de interpretação do Brasil e outro do México”, destaca a editora Corregidor na apresentação do livro de Silviano Santiago que acaba de publicar, Las raíces y el laberinto de América Latina, com tradução e prólogo de Mónica González García. A obra – dedicada ao romancista Autran Dourado – realiza uma análise cruzada dos clássicos Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, e O labirinto da solidão, de Octavio Paz. Não causa surpresa que seja Santiago, pois, conforme destaca o texto de  apresentação, desde os seus primeiros escritos o autor se preocupa em conectar o pensamento brasileiro como parte integrante da América Latina. Romances como Stella Manhattan e Em liberdade, igualmente publicados pela Corregidor, também trazem elementos dessa questão.

Silviano Santiago contribui no outro livro recém-lançado pela Corregidor, o romance La ciudad sitiada, de Clarice Lispector, ao la-ciudadClariceassinar um texto crítico sobre a obra.  A edição conta ainda com texto crítico do americano Benjamin Moser, biógrafo de Clarice. Ambos os livros, o de Silviano e o de Clarice, foram editados com o apoio da Fundação Biblioteca Nacional (FBN) e compõem a coleção Vereda Brasil da editora. Uma das coordenadoras é  Florência Garramuño, tradutora e autora do prólogo do romance La ciudad sitiada. Na página da editora dedicada a Clarice, lê-se que Vereda Brasil é a coleção “mais importante da Argentina (e da América Latina) dedicada a autores clássicos e contemporâneos da literatura brasileira”.

Espera-se que a presença da literatura brasileira venha a ter ainda mais destaque na Argentina até 2014, quando a cidade de São Paulo será homenageada na Feira do Livro de Buenos Aires.  Gustavo Pacheco, chefe do setor cultural da Embaixada do Brasil em Buenos Aires, assina artigo a respeito, apresentando a cultura da cidade, nesta sexta-feira no jornal portenho La Nacion.

No México, a editora Elephas também acaba de lançar obras de dois brasileiros: El hijo eterno, de Cristovão Tezza, com tradução María Teresa Atrián Pineda, e El mundo enemigo – Inferno provisorio II, de Luiz Ruffato, com tradução de María Cristina Hernández Escobar. As duas edições receberam apoio da FBN.


							
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Pipoca no Pão de Açúcar: editora de Berlim lança antologia com jovens autores brasileiros e reedita clássicos do Brasil

ANTOLOGIA popcorn alemanhaA editora alemã Wagenbach, de Berlim, é uma das mais ativas na publicação de livros brasileiros neste ano da homenagem ao Brasil na Feira do Livro de Frankfurt. Um de seus lançamentos  é a antologia  Popcorn unterm Zuckerhut (algo como Pipoca no Pão de Açúcar), que, apesar da referência carioca da capa colorida (na imagem ao lado) – com o desenho alegre de uma mulata na praia – reúne contos de 20 jovens autores de diferentes regiões do país (veja a relação completa logo abaixo). O volume foi organizado por Tino Berger e, do conjunto de obras   brasileiras previstas este ano pela editora – boa parte editada com o apoio da Fundação Biblioteca Nacional (FBN) – trata-se das poucas a não ser reedição.  Uma das novidades planejadas para 2013 é Habitante irreal (Unwirkliche Bewohner), de Paulo Scott, com tradução de Marianne Gareis.

Vidas Secas, Karges Leben, G. RamosEntre as reedições, a Wagenbach acaba de relançar Vidas Secas, de Graciliano Ramos, em alemão Karges Leben, com a capa (reproduzida ao lado) igualmente bastante colorida. A tradução foi realizada por Willy Keller. Do autor alagoano, também está previsto o relançamento de Infância (Kindheit), com tradução de Inés Koebel.  A editora reeditou ainda Sargento Getúlio, de João Ubaldo Ribeiro, com a versão clássica do grande tradutor Curt Meyer-Clason, que assina a tradução de Miguilim, de Guimarães Rosa, outra reedição deste ano da Wagenbach. E já foi enviada às livrarias a reedição de As três Marias (Die drei Marias), de Rachel de Queiroz, com tradução de Ingrid Führer. O layout das capas das obras publicadas de autores brasileiros segue o mesmo padrão colorido.

A editora planeja outra antologia com autores brasileiros, organizada por Marco Bosshard, que terá como título Rio. Eine literarische Einladung (algo como Rio, um convite literário) Além disso, publica livros de autores não brasileiros sobre o país, como o de Dawid Danilo Bartelt, Copacabana, Biographie eines Sehnsuchtsortes, sobre a legendária praia carioca.

A relação dos autores incluídos na coletânea Popcorn unterm Zuckerhut é a seguinte: Estevão Azevedo, Fabrício Corsaletti, João Paulo Cuenca, Andréa del Fuego, Laura Erber, Ferréz, João Filho, Katherine Funke, Daniel Galera, Cecília Giannetti, Michel Laub, Adriana Lisboa, Ricardo Lísias, Santiago Nazarian, Carola Saavedra, Tatiana Selem Levy, Leandro Salgueirinho, Veronica Stigger, Joca Reiners Terron, Paloma Vidal.

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Sobre figueiras. Em “O tempo e o vento”, a árvore é testemunha dos acontecimentos e cenário de confidências

Teresa MatarranzA figueira sob a qual Floriano Cambará e dr. Camerino conversam, em O tempo e o vento, de Erico Verissimo, traz um turbilhão de imagens e lembranças para Teresa Matarranz, que traduz para o espanhol O Arquipélago, terceira parte da trilogia. Bíblica, a figueira encerra significados que variam em diferentes culturas – significados sempre contundentes. Neste artigo  para o blog do Centro Internacional do Livro, Teresa, que visitou Porto Alegre como parte de sua Residência de Tradução, apoiada pela FBN, realiza o cruzamento – a traduzibilidade possível – dos possíveis sentidos dessa árvore carregada de simbolismos.

Teresa Matarranz*

Nos capítulos de O tempo e o vento, de Erico Veríssimo, que já traduzi, se repete uma cena: as longas conversas de  Floriano Cambará com o seu padrinho, o dr. Camerino, e com o seu amigo Roque Bandeira, debaixo da figueira grande da Praça da Matriz. Não posso dizer que à sua sombra porque geralmente é de madrugada, quando a paz já retornou, quando cessou a confusão dos alto-falantes berrando notícias de comícios, marchas e dobrados marciais. Os namorados que fizeram a volta da praça já voltaram para as suas casas e estão dormindo. Só restam iluminadas as janelas do Sobrado, onde agoniza Rodrigo Cambará.

Aparecem no texto outras plantas e árvores que eu nunca vi: jacarandá, bergamoteira, cinamomo… A palavra figueira, porém, me traz um turbilhão de imagens e lembranças relacionadas com duas ilhas mediterrâneas, Samos e Formentera. O cheiro e a aspereza das folhas da figueira me transportam ao verão, com o sol a pino e o canto das cigarras. Normalmente, só conheço as árvores pelo fruto. As folhas da figueira, porém, com suas cinco pontas, são inconfundíveis, como as folhas da oliveira e da videira. Lembro um ditado em português que também existe em espanhol: “Oliveira de meu avô, figueira de meu pai, vinha que eu plantar”. As três árvores têm ressonâncias bíblicas: a figueira é a única árvore mencionada pelo seu nome no Gênesis. Quando Adão e Eva se viram nus, depois de comer o fruto da árvore proibida, entrelaçaram folhas de figueira e se cingiram. Mais tarde, a iconografia preferiu as folhas de videira. No  Cânticos dos Cânticos, a chegada do amor é anunciada quando vicejam os frutos na figueira. Também Marcos  usa a figueira como imagem: quando o seu ramo se torna tenro e as suas folhas começam a brotar, sabemos que o verão está próximo.

No meu imaginário a figueira é uma árvore pequena e com folhas. Não consigo lembrar uma figueira nua. Mas imagino que no Brasil tudo é exuberante. Procuro a palavra no dicionário Michaelis e fico sabendo que o ficus brasiliensis é uma árvore muito grande, nativa do Brasil, e cultivada noutros países, enquanto a figueira comum é uma árvore originária de Ásia, mas cultivada com muitas variedades em muitas regiões quentes do Velho Mundo e do Novo Mundo. Tem uma infinidade de variedades: figueira-brava, figueira-de-barbaria, figueira-da-índia, figueira-de-bengala, figueira-de-adão, figueira-do-inferno, figueira-maldita. Resisto à tentação de procurar as imagens; prefiro passear por Porto Alegre e as suas redondezas e interrogar os nativos sobre as árvores suspeitas de ser figueiras. Encontro também no dicionário duas expressões a respeito: “Ser uma figueira-do-inferno” para denominar a mulher estéril, e uma outra do Rio Grande do Sul, muito apropriada para a terra dos gaúchos, “plantar uma figueira”, que significa cair do cavalo.

Igualmente, encontramos ditados com respeito ao fruto: “O figo, para ser bom, deve ter pescoço de enforcado, roupa de pobre e olho de viúva”. Temos um  equivalente catalão: “Una figa per ser bona ha de tenir tres senyals: clivellada, secallona i becajada pels pardals”. Na Catalunha, a figueira é considerada uma árvore maldita. A sua sombra é maligna, debaixo dela não cresce nada bom. Um ditado espanhol diz: “A la sombra de la higuera, ni te sientes ni te duermas”. Jesus amaldiçoou uma porque não tinha frutos e secou. Segundo o apócrifo “Apocalipse de Pedro”, quando brotarem os ramos da figueira seca, vai ser o fim do mundo. É a árvore dos enforcados. Judas se enforcou numa figueira; por isso os frutos são pretos por fora e sangrentos por dentro. Também, segundo a tradição, São João Batista foi degolado ao pé de uma figueira. Por isso, todos os anos, no 29 de agosto, dia de Sao João Degolado, a todas as figueiras se lhes corta um ramo.

Mas voltemos ao romance. A figueira é a testemunha de todos os acontecimentos de Santa Fé e cenário de confidências. Floriano sabe que a sombra da figueira lhe propicia uma disposição de espírito que vai levá-lo a pensar em voz alta, só que na presença de outra pessoa. Muitos anos antes o seu pai, Rodrigo, costumava fazer confissões a seu irmao Toríbio. Também conversava com o padre, como fazia o seu bisavô.

Se retrocedermos no tempo da ficção, quando Ana Terra, após uma larga travessia, chegou ao alto duma coxilha verde onde se erguiam cinco ranchos de taipa cobertos de capim, a figueira já estava ali.

* Terasa Matarranz López participa do  Programa de Residência de Tradutores no Brasil, da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), e verte para o espanhol, junto com Pere Comelles, a terceira parte da trilogia O Tempo e o Vento, denominada O Arquipélago, para a editora Machado Libros. Teresa é formada pelo Centro de Estudos Brasileiros de Barcelona e já traduziu Os leopardos de Kafka, de Moacyr Scliar e – também com Pere Comellas – o romance  K., de Bernardo Kucinski. 

 

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O diário de uma tradutora no Brasil: Claire Varin e o entusiasmo irradiante pela viagem entre as línguas

Claire Varin

Claire Varin Secchin ABLNão me lembro onde li que uma das coisas que se deve fazer no decorrer de um ano é visitar uma cidade desconhecida. A ideia ficou gravada na minha mente apesar de a fonte ter secado na minha memória… De qualquer forma, cumpri a prescrição: fui este ano a Campina Grande, onde nunca tinha ido, no estado da Paraíba, depois de ter passado por Salvador para tirar umas dúvidas de tradução com o autor baiano Aleilton Fonseca, durante uma residência apoiada pela Fundação Biblioteca Nacional.

Assim, em Campina, fui acolhida no aeroporto por uma boa brisa  e  pela professora Sinara Branco, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Linguagem e Ensino, da Unidade Acadêmica de Letras da UFCG. Um título longo que, da parte dessa também tradutora do inglês para o português, não dissimula um entusiasmo irradiante por viagens entre as línguas. Alías, foi a Sinara (nome soando prazerosamente como sirène/sirena para a francófona que sou) que me sugeriu animar uma oficina de tradução na Universidade, já que eu devia participar, como bolsista da FBN, de atividades com esta instituição parceira. Pois bem, vamos lá.

Claire Varin OficinaNo entanto, como sou autora, também propus, entre outras atividades  para o ateliê, a tradução de um conto meu, Entre os sexos, os mundos e as culturas… Parece-me que não há nada mais eficaz do que traduzir com o autor por perto esclarecendo sua intenção, sua visão e o uso e o contexto de regionalismos ou palavras mais requintadas ou de expressões dos diálogos. Objetivamente falando, o contato com o autor é precioso e, quando este é também tradutor, a ajuda é determinante para acabar com as hesitações sobre escolhas possíveis e andar no caminho certo.Vejam o resultado do trabalho com os alunos, em texto revisto por Alyere Silva Farias e Josilene Pinheiro-Mariz que participaram ativamente da Oficina (retratada na  foto), no seguinte endereço.

Foi uma alegria sentir o interesse dos 24 participantes, professores e estudantes, inclusive de outro idiomas, como o inglês e o espanhol. Foi um prazer observá-los enumerar equivalências portuguesas para termos ou figuras na língua de Molière. A autora ficou feliz e a tradutora também, percebendo a dedicação de todos debruçados sobre o ofício.

À convite da professora Rosiane Xypas, participei do Dia da Francofonia na UFCG, com uma palestra sobre minha descoberta da obra de Clarice Lispector e do Brasil, onde fiz várias estadias primeiramente para minhas pesquisas de doutorado sobre esta imensa escritora e «o espírito das línguas».

Em 1983, no Rio, visitei a Academia Brasileira de Letras com o saudoso Otto Lara Resende que me pediu então para dirigir umas palavras à assembleia. Quando comentei esse fato no ouvido do Aleilton Fonseca, de quem estou traduzindo, com a colega Danielle Forget, o livro de contos A Mulher dos Sonhos para o Québec, ele me pôs em contato com o acadêmico Antonio Carlos Secchin. Com este importante poeta e ensaísta, fiz uma visita de reconhecimento à ABL antes de eu embarcar para o Canadá. Foi assim que parei de novo, trinta anos depois, diante da estátua de Machado de Assis, na  entrada da Academia, e imortalizei o momento (no alto, à esquerda, a foto de Claire e Secchin), já que não sou uma imortal…

Finalmente, dei um pulo na Fundação Biblioteca Nacional, que agradeço pelo apoio tão bem vindo para os encontros de trabalho que tive em Salvador com o autor Aleilton Fonseca, que ficará vinculado à terra do Québec graças a suas « histórias de humor » vertidas para o francês.

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Augusto dos Anjos, “o poeta mais triste do Brasil”, é publicado pela primeira vez na Espanha

augusto dos anjosCom uma discreta tarja – El poeta más triste que ha dado Brasil: INÉDITO EN ESPAÑA – a Olifante-Ediciones de Poesia lança Yo – Antología breve (Eu – Antologia breve), de Augusto dos Anjos (1884-1912), edição bilíngue, com seleção e tradução de Ángel Guinda.  Na introdução, Guinda  conta que o poeta, um precursor do modernismo no Brasil, despertou seu interesse não apenas pela “originalidade audaciosa de seu léxico, pela sua perfeição formal, sua musicalidade”, mas principalmente pela força dramática dos poemas. 

Augusto dos Anjos - Yo - Antología breve“Assim como António Nobre (Porto, 1867), num de seus versos, qualifica sua obra como o livro mais triste de Portugal, em minha opinião Augusto dos Anjos é o poeta mais triste que já houve no Brasil”, escreveu Guinda, que traduziu 24 poemas e promete uma futura seleção mais ampla. Para realizar a tradução, Guinda consultou a 36a edição de Eu e outras poesias, publicada pela Editora Civilização Brasileira em 1985. No dia 20 de abril comemoraram-se os 129 anos do poeta. Em 2012, Eu, o único livro do poeta, completou um século de lançamento.

A seguir, leia a tradução das duas primeiras estrofes do poema Psicologia de um Vencido: Yo, hijo del carbono y del amoníaco,/ Monstruo de oscuridad y resplandor,/ sufro, desde la epigénesis de la infancia, /la influencia perversa del Zodíaco.// Profundísimamente hipocondríaco, / este ambiente me causa repugnancia…/ Sube a mi boca un ansia como el ansia/ que escapa de la boca de un cardíaco. (…)

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Moacyr Scliar é o autor brasileiro com mais lançamentos na Alemanha este ano

Levantamento foi realizado pela Feira do Livro de Frankfurt.  João Ubaldo Ribeiro e Clarice Lispector também são destaques

ScliarGermanEntre os lançamentos da literatura brasileira na Alemanha, neste ano da homenagem ao Brasil na Feira do Livro de Frankfurt, Moacyr Scliar (1937-2011) é o autor brasileiro até o momento com o maior número de novas edições e reedições, com cinco títulos. O levantamento foi realizado pela Feira e está disponível na lista de New Releases, na página do país homenageadoOs deuses de Raquel, um desses livros, acaba de ser publicado pela Hentrich & Hentrich com bolsa do Programa de Apoio à Tradução da FBN. O título em alemão é Die Götter der Raquel e a tradução foi realizada por Marlen Eckl (a capa é reproduzida ao lado).

Neste mês de maio, chega às livrarias Os leopardos de Kafka - Kafkas Leoparden, com tradução de Michael Kegler para a editora Lilienfeld, também com bolsa da FBN.  Os outros três livros de Scliar com publicação prevista este ano são: A guerra do Bonfim, ainda sem título em alemão, editado pela Hentrich & Hentrich e tradução de Marlen Eckl (com apoio da FBN) ; O centauro no jardim (Der Zentaur im Garten), uma reedição realizada pela Hoffmann und Campe com tradução de Karin von Schweder-Schreiner; e O Exército de um homem só (Die Ein-Mann-Armee), também reedição, com tradução de Karin von Schweder-Schreiner, pela Editora Lilienfeld.

A presença de Scliar na Alemanha resulta de longo trabalho junto às editoras no país. Os tradutores Marlen Eckl e Michael Kegler estão entre os principais incentivadores. Marlen Eckl incentivou a editora Hentrich & Hentrich, inclusive, a publicar outros brasileiros. E Michael Kegler levou dez anos buscando a publicação de Os leopardos de Kafka, além de sugerir a reedição de O Exército de um homem só.

Depois de Scliar, há dois autores com três títulos: João Ubaldo Ribeiro  e Clarice Lispector (1925-1977).  Um dos títulos de Clarice é o infantil O mistério do coelho pensante, também editado pela Hentrich & Hentrich, com apoio da FBN. Os outros títulos da autora que estarão nas livrarias alemãs são: Perto do coração selvagem (reedição) e O lustre, editados pela Schöffling & Co (ambos com bolsa da FBN).

Os de João Ubaldo são reedições: Viva o povo brasileiro, traduzido como Brasilien, Brasilien (Suhrkamp), por Curt Meyer-Clason e Jacob Deutsch; Sargento Getúlio (Wagenbach), também com tradução de  Curt Meyer-Clason (reedição que conta com bolsa da FBN); e Um brasileiro em Berlim, com tradução de Ray-Güde Mertin, disponível em duas edições, da Editora Suhrkamp e em versão bilíngue pela TFM.

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“Em Porto Alegre, respirei Erico Verissimo”. Tradutor espanhol visita a casa do autor e se reúne com pesquisadores

ContinentePere Comellas, que realiza a  versão para o espanhol de O Arquipélago, terceira parte da trilogia O Tempo e o Vento, obra clássica de Erico Verissimo,  editada na Espanha pela A. Machado Libros, dá depoimento sobre o período de pesquisa que acaba de encerrar no Brasil. Comellas veio ao país com bolsa do Programa de Residência de Tradutores da Fundação Biblioteca Nacional (FBN). O livro inicial da trilogia, O Continente (primeira parte), recém-lançado em Madri pela Machado Libros,  conta com traduçao de Basilio Losada (a capa é reproduzida ao lado). A tradução integral da trilogia é apoiada pela FBN. Comellas consultou no Rio os arquivos mantidos pelo Instituto Moreira Salles (IMS) e, em Porto Alegre, encontrou-se com pesquisadores e foi recebido por Luis Fernando Verissimo e sua mulher, Lucia, na casa onde o autor viveu.   

Por Pere Comellas*

O professor Luís Augusto Fischer, da UFRGS, observou como o escritor Erico Verissimo mudou os seus rumos literários depois da primeira estadia nos Estados Unidos. Até então, Verissimo era um escritor de vocação cosmopolita. Através do seu trabalho como editor e tradutor na Globo, de Porto Alegre, Verissimo começara a disponibilizar para o leitor brasileiro algumas das grandes obras da literatura norte-americana e inglesa (o que, segundo alguns especialistas, nunca lhe foi perdoado por uma certa crítica). De repente, volta dos Estados Unidos e publica O Continente, isto é, um romance com uma perspectiva completamente gaúcha. Perspectiva no seu sentido mais literal: um olhar desde o interior do Rio Grande do Sul. Um olhar para o Brasil todo, e para o mundo, mas bem fincado nas coxilhas da cidade imaginária de Santa Fé, não longe da sua cidade de nascimento (as cidades imaginárias também se situam no mapa; Verissimo foi um especialista nisso: eu vi os mapas de Santa Fé e de Antares desenhados pelo próprio escritor).

Essa viagem norte-americana, esse distanciamento, teria acabado com uma vaga prevenção de Verissimo contra o provincianismo literário, contra o chovinismo, contra a folclorização. É possível ter uma voz bem situada e enraizada e não ser provinciano, nem folclórico (lição que, por certo, a literatura norte-americana aprendeu cedo). Talvez eu tenha a sorte de aprender isso mesmo e talvez a estadia no Brasil no quadro do Programa de Residência de Tradutores venha a contribuir para essa aprendizagem.

No Rio, na Fundação Moreira Salles, tive a oportunidade de ver alguns papéis do Erico Verissimo. Por exemplo, um dos originais de O Arquipélago, o romance que andamos a traduzir, a Teresa Matarranz e eu (e que nos permitiu optar ao programa). “Um dos originais” pode parecer uma expressão contraditória, mas em Verissimo não é, e talvez não seja na maioria dos escritores. Verissimo criava um original, que com frequência oferecia a algum amigo ao tempo que mandava para a editora (ou inclusive antes disso). Depois, no processo de publicação, ele corrigia, substituía, mudava, tirava e acrescentava, ia criando sucessivos “originais”. Conferi o texto da minha edição (uma edição portuguesa) com algumas das páginas datilografadas e cheias de anotações em caneta vermelha, azul ou roxa. Desenhos pelos cantos. Uma beleza. Um monte de diferenças. Uma página revisada e um pouco mais além o mesmo parágrafo re-revisado. O inferno e o paraíso de um estudioso da genética do texto.

Também no Rio está uma parte da correspondência pessoal do autor. Será que é lícito ler as cartas dos outros, mesmo que eles sejam autores célebres? Acho que não, mas é um crime muito bem visto, e a impunidade é total! Sob o pretexto de conhecer melhor o autor, peço à amável e competente documentalista uma lista de cartas. Assuntos familiares, assuntos particulares, também assuntos literários. De repente, numa breve carta de Verissimo a Clarice Lispector, o seguinte comentário: “Estão fazendo uma onda danada em favor de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Dizem que o homem é gênio e que o livro é das grandes obras da Humanidade. Não consegui ir além da página 20. Devo estar ficando muito burro. Vou tentar de novo, though”. Verissimo acabou por gostar, certo. Mas que alívio, que alegria para qualquer um de nós, que tem os seus Grandes Sertões (chamem-se Ulisses, The Sound and the Fury ou Os Lusíadas) cuidadosamente guardados no armário e que tanta vez sentiu que devia estar ficando muito burro!

Foi, no entanto, em Porto Alegre, onde realmente respirei Verissimo pelos quatro cantos. Obrigado, Regina Ungaretti e Sabrina Lindemann, e o resto do time do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, que me acolheram e me procuraram alguns encontros inesquecíveis. Obrigado, Waldemar Torres, pela hospitalidade e a conversa de uma tarde na sua casa, onde descobri o Verissimo tradutor. Obrigado, Flávio Loureiro Chaves, pela sua paciência com a minha ignorância (e pelos livros oferecidos, que espero que pelo menos a impeçam de crescer). Obrigado, Márcia Ivana Lima e Silva, pela sua lição sobre Erico Verissimo e sobre o arquivo do CEEE (onde pude ver mais originais cheios de rabiscos, desenhos e correções), mas sobretudo pela sua amizade (a pequena Irene e a sua mãe mandam uma saudação). Obrigado, Lúcia e Luis Fernando Verissimo, por me abrirem a casa do Erico que é a sua e por permitirem-me roubar-lhes uma fotografia (e ainda por cima um exemplar do Arquipélago, os três volumes!). E obrigado aos amigos velhos de Porto Alegre que tive a oportunidade de rever: talvez ainda o destino volte a nos juntar.

O Brasil é um país surpreendente. Tomara que fosse melhor, porque gostamos dele e por isso gostaríamos que fosse perfeito. Não é nem vai ser, claro. Tomara que pelo menos fosse mais igualitário. O povo do Brasil ofereceu-me a possibilidade de aproveitar esse programa de residência para tradutores (o povo não foi consultado, claro, mas pagou as despesas, e seus representantes da Fundação Biblioteca Nacional fizeram da nossa estadia uma delícia) e só posso retribuir esse presente tentando difundir com o meu trabalho e as minhas pobres possibilidades a sua cultura literária. Afinal, a tradução é a única chance que tem a literatura de ser realmente universal.

* Professor Titular da área de português da Universidade de Barcelona, o tradutor Pere Comellas veio ao Brasil para trabalhar sua tradução do romance “O Arquipélago”, de Érico Veríssimo – 3ª parte da trilogia “O Tempo e o Vento” – durante o Programa de Residência de Tradutores Estrangeiros da FBN. Formado pela mesma universidade em que hoje trabalha, Pere já traduziu o segundo volume da série, “O Retrato”, e dessa vez divide a tarefa com uma colega, Teresa Matarranz López, que também participa do Programa de Residência de Tradutores no Brasil.

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O livro ´Once poetas brasileros´, da Coleção Libro al Viento, é lançado em Bogotá

11 poetasO Brasil foi homenageado no ano passado na Feira Internacional do Livro de Bogotá (FilBo) e, na edição deste ano, o país voltou a apresentar mais de sua literatura com o lançamento de novo volume da Coleção Libro al Viento, um projeto da Prefeitura da capital colombiana. O livro Once poetas brasileros, lançado em 1º de maio na FilBo, último dia do evento, é distribuído gratuitamente na capital, assim como todos os títulos da tradicional coleção, criada para estimular o hábito da leitura. O volume foi editado com o apoio da Embaixada do Brasil na Colômbia, no contexto de sua aliança deste ano com a Secretaria de Cultura de Bogotá, denominada Distrito Brasil.

Participam da seleção, que contou com curadoria e apoio do editor brasileiro Sergio Cohn, os seguintes autores: Roberto Piva, Leonardo Fróes, Chacal, Bernardo Vilhena, Paulo Leminski, Alice Ruiz, Paulo Henriques Britto, Alberto Pucheu, Ricardo Aleixo, Ana Martins Marques e Angélica Freitas.  Todos os poetas também integram a coletânea Poesia.br (Azougue), recém-lançada no Brasil e editada por Sergio Cohn.

Trata-se de uma continuidade do trabalho iniciado no ano passado, quando a Libro al Viento lançou o volume Ficciones desde Brasil (com contos de Machado de Assis, Lima Barreto, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, Nélida Piñon, Marina Colasanti, Tabajara Ruas e Adriana Lunardi).

“Em Bogotá circulam milhões de Libros al Viento que passam de mão em mão nos meios de transporte, nos parques, nos mercados, nos hospitais e em mais de 100 clubes de leitura”, pode-se ler no site da Libro al Viento, coleção que já existe há quase uma década (desde 2004) e foi um dos motivos de a Unesco ter escolhido a cidade como Capital Mundial do Livro 2007.

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Evento em homenagem a Vinicius de Moraes atrai 700 pessoas na Feira do Livro de Buenos Aires

Participação brasileira conta com a presença de Milton Hatoum e Luiz Ruffato

tapa Poesia reunida_OrozcoEvento em homenagem ao poeta e compositor Vinicius de Moraes, no ano de seu centenário, realizado no sábado, dia 27 de abril, na Feira do Livro de Buenos Aires, organizado pela Embaixada do Brasil na capital portenha, atraiu um público de 700 pessoas. O Salão José Hernández, no centro de exposições do bairro de Palermo, onde a Feira acontece até 13 de maio, ficou lotado. A homenagem foi realizada em três partes: um debate sobre a obra do poeta; a apresentação de uma nova antologia de seus poemas e canções; e um show de Mariana de Moraes, neta de Vinicius. Como lembrou o jornal Clarín numa entrevista com Mariana, publicada na véspera do show, Vinicius “foi realmente popular na Argentina”.

A mesa-redonda que abriu a homenagem contou com a participação de Daniel Divinsky, editor das Ediciones De La Flor e primeiro editor do poeta em espanhol; Alfredo Radozinsky, produtor fonográfico, responsável pelos dois discos gravados por Vinicius na Argentina na década de 1970; Liana Wenner, biógrafa e autora do livro Nuestro Vinicius, sobre  as estadas do poeta no Uruguai e na Argentina; e o Chefe do Setor Cultural da Embaixada do Brasil em Buenos Aires,  Gustavo Pacheco.

Em seguida, foi apresentada à plateia a “Antologia sustancial de poemas y canciones”, recém-lançada pela editora Adriana Hidalgo e traduzida por Cristian De Nápoli.  O livro reúne cem poemas e canções de Vinicius de Moraes em versão bilíngue, além de uma cronologia e uma entrevista. O Setor Cultural da Embaixada do Brasil em Buenos Aires, a pedido da editora, intermediou contato com os herdeiros do autor a fim de viabilizar a publicação do livro. 

A 39a edição Feira Internacional do Livro de Buenos Aires foi inaugurada em 25 de abril,  quinta-feira, e o Brasil participa com um estande de 39 m2, organizado pela Embaixada, em que se presta homenagem a Vinicius de Moraes. Há um painel com fotografias do poeta e cronologia de sua vida e obra; traduções de alguns de seus poemas mais conhecidos; tela de plasma que exibe trechos de documentários e espetáculos musicais; vitrine com livros, discos e objetos pessoais; e venda de exemplares de seus livros em português e em espanhol.

Além da homenagem a Vinicius, o Brasil participa da Feira do Livro com a presença de dois escritores: Milton Hatoum e Luiz Ruffato. Ambos participam, no sábado, 4 de maio, do evento “Diálogos con escritores latino-americanos”.

Hatoum está lançando seu terceiro livro na Argentina, La ciudad aislada, cuja tradução, a cargo da editora Beatriz Viterbo, foi custeada pela Embaixada. O autor esteve na cidade de Rosario no domingo, 28 de abril, fechando a IV Semana de la Lectura de Rosario – parceria entre a Embaixada e a Secretaria de Cultura de Rosario. Também participa de entrevista pública com o crítico e escritor Damián Tabarovsky no dia 30 de abril, às 19h, no Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (Malba).

Na sexta-feira, 26 de abril, o suplemento cultural ADN do jornal La Nación publicou matéria de destaque com Ruffato e Hatoum. Mais informações, foto do estande do Brasil e imagem da capa do livro de Hatoum podem ser obtidas no Facebook da Embaixada do Brasil em Buenos Aires.

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O desafio borgiano de traduzir Vilém Flusser. Versão para o inglês supre lacuna nos EUA

roktabstop-FlusserO filósofo Vilém Flusser (1920-1991), natural de Praga, viveu muitas  décadas no Brasil e escreveu boa parte de sua obra em português.  No entanto, a maioria das traduções da sua obra disponíveis nos EUA se baseia em textos escritos em língua alemã.  Para suprir essa lacuna, a editora americana Univocal acaba de publicar, com apoio da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), o livro Post-History, do filósofo, traduzido por Rodrigo Maltez Novaes, tendo como fonte principal a edição publicada em 1983 pela editora brasileira Duas Cidades.

Flusser elaborou diferentes versões da obra: uma francesa (parcial), duas em português, duas em alemão e uma em inglês (parcial).  Todas foram consultadas para a nova edição, conta o tradutor. Nos anos 1970, quando voltou a morar na Europa, o filósofo passou a adotar a tradução como método para retrabalhar as diferentes versões; Post-History foi o primeiro dessa série. Conforme escreve Novaes na introdução, ele ”aprimorava o texto ao ser forçado a levar em conta as diferentes posições ontológicas impostas pelas diferentes línguas”.

Dos originais disponíveis no Arquivo Vilém Flusser na Universität der Künste, em Berlim, estima-se que apenas 30% foram publicados, e a maioria em alemão ou em português. No entanto, “as poucas traduções para o inglês que se tornaram disponíveis desde 2011 foram todas traduzidas de versões alemãs, o que indica um desequilíbrio na balança que favorecia apenas uma específica faceta do trabalho de Flusser, ou seja, seus textos em alemão”, diz Novaes.

Agora a situação poderá mudar. A Univocal programa para setembro o lançamento de outro livro de Flusser traduzido diretamente do português também por Novaes, com o apoio da FBN: Natural Mind.  Os volumes são editados por Siegfried Zielinski, diretor do Arquivo Vilém Flusser, em Berlim.

O desafio de lidar com sua obra é grande. “O pesquisador ou tradutor da obra de Flusser é imediatamente apresentado a um labirinto borgiano de diferentes versões, publicadas ou inéditas, tornando a procura por uma versão final ou verdadeira uma tarefa impossível”, testemunha Novaes sobre o trabalho que enfrentou.

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